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Neyre Tonhela

Fonoaudióloga • ✓ CRFa

10 min de leitura

PECS, ABA e Fonoaudiologia no Autismo: Como Essas Abordagens se Conectam

Autismo e Necessidades Especiais

PECS, ABA e Fonoaudiologia no Autismo: Como Essas Abordagens se Conectam

Três das principais abordagens usadas no TEA — entenda o que é cada uma, como se diferenciam e por que funcionam melhor em conjunto do que separadas.

Quando os pais de uma criança com autismo começam a pesquisar sobre intervenções, três siglas aparecem com frequência: PECS, ABA e fonoaudiologia. Elas são frequentemente mencionadas juntas — às vezes como se fossem a mesma coisa, às vezes como se fossem concorrentes. Na realidade, são abordagens distintas que se complementam.

Entender o que cada uma é, o que faz, e como se articulam na prática é fundamental para que as famílias tomem decisões informadas sobre o tratamento dos seus filhos. Este artigo oferece esse mapa — sem jargão desnecessário, com foco no que importa para quem está no dia a dia com uma criança com TEA.

O que é ABA — Análise do Comportamento Aplicada

A ABA (Applied Behavior Analysis) é uma ciência e uma prática terapêutica baseada nos princípios do comportamento — reforço, extinção, modelagem, encadeamento. Desenvolvida a partir dos trabalhos de B.F. Skinner, foi adaptada para o tratamento do autismo principalmente por Ivar Lovaas nos anos 1960-70.

A ABA moderna é muito diferente da abordagem original de Lovaas, que era intensiva, estruturada e focada em treino discreto de habilidades isoladas. As abordagens contemporâneas de ABA são mais naturalistas, seguem os interesses da criança e trabalham em contextos funcionais.

Na prática, a ABA ensina habilidades por meio de antecedente-comportamento-consequência: o terapeuta cria uma oportunidade de aprendizado, a criança responde, e recebe consequências que aumentam ou reduzem a probabilidade de o comportamento se repetir. A maioria das habilidades ensinadas é dividida em passos menores e encadeada progressivamente.

Quem aplica: Analistas do Comportamento (BCBAs) e técnicos de comportamento supervisionados (RBTs). No Brasil, a certificação BCBA é reconhecida e há crescimento significativo de profissionais formados.

Para que serve: desenvolvimento de habilidades de linguagem, comunicação, autoajuda, habilidades sociais, redução de comportamentos que interferem na aprendizagem.

O que é PECS — Picture Exchange Communication System

O PECS (Sistema de Comunicação por Troca de Figuras) é um sistema de comunicação aumentativa desenvolvido por Lori Frost e Andy Bondy nos anos 1990, especificamente para crianças com autismo que não desenvolveram fala funcional.

O PECS ensina a criança a se comunicar entregando (trocando) uma figura ao parceiro comunicativo para fazer um pedido. O ensino é estruturado em seis fases progressivas:

  1. Fase 1: a criança entrega uma figura para obter um item desejado (com dois adultos — um promovendo, outro recebendo)
  2. Fase 2: persistência — a criança vai até o parceiro comunicativo em diferentes locais para fazer a troca
  3. Fase 3: discriminação — escolhe entre figuras diferentes para pedir o item correto
  4. Fase 4: estrutura de frase — “Eu quero ___” usando uma tira de frase
  5. Fase 5: resposta à pergunta “O que você quer?”
  6. Fase 6: comentários espontâneos sobre o ambiente (“Eu vejo ___”, “Eu ouço ___”)

O PECS tem evidência robusta para desenvolvimento de iniciativa comunicativa e redução de problemas de comportamento relacionados à frustração comunicativa. Um efeito bem documentado é o aumento de vocalização e fala após a implementação — o sistema serve como trampolim para a comunicação verbal.

Quem aplica: fonoaudiólogos, analistas do comportamento, pedagogos e professores — todos mediante treinamento específico no protocolo PECS.

O que é a fonoaudiologia no contexto do TEA

A fonoaudiologia é a profissão regulamentada que tem como escopo a comunicação humana em todas as suas dimensões — linguagem, fala, voz, audição, funções orofaciais. No contexto do TEA, atua em:

  • Avaliação do perfil comunicativo da criança
  • Planejamento e implementação de sistemas de CAA (incluindo PECS)
  • Desenvolvimento de linguagem — receptiva e expressiva
  • Pragmática e comunicação social
  • Trabalho com ecolalia funcional
  • Articulação e inteligibilidade de fala
  • Orientação familiar e escolar

O fonoaudiólogo é o profissional com formação mais específica em linguagem e comunicação. Enquanto o analista do comportamento usa a comunicação como uma das áreas de habilidades a desenvolver dentro de um programa mais amplo, o fonoaudiólogo tem a comunicação como foco central e exclusivo.

Diferenças e complementaridades na prática

As três abordagens não são concorrentes — são complementares. Veja como se diferenciam e onde se sobrepõem:

O que cada uma foca

  • ABA: comportamento em sentido amplo — comunicação, autoajuda, habilidades sociais, regulação comportamental. A comunicação é uma das áreas trabalhadas dentro de um programa mais amplo.
  • PECS: especificamente a iniciativa comunicativa por meio da troca de figuras. É um sistema, não uma abordagem terapêutica completa — pode ser implementado dentro da ABA ou da fonoaudiologia.
  • Fonoaudiologia: comunicação em todas as suas dimensões — com foco específico em linguagem, fala e suas bases neurológicas e motoras.

Como se complementam

Na prática mais eficaz, as três trabalham juntas:

  • O analista do comportamento cria um programa abrangente de habilidades, dentro do qual a comunicação é um objetivo central
  • O fonoaudiólogo especifica os objetivos comunicativos, escolhe e implementa o sistema de CAA mais adequado, e trabalha os aspectos linguísticos e pragmáticos
  • O PECS (ou outro sistema de CAA) é o instrumento usado por ambos — com consistência de implementação garantida pela comunicação entre os profissionais

O maior risco é quando cada profissional trabalha de forma isolada, com objetivos diferentes e sem comunicação. Inconsistência entre os ambientes terapêuticos é um dos maiores obstáculos ao progresso de crianças com autismo.

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Como articular ABA, PECS e fonoaudiologia na prática

Para que as abordagens funcionem em conjunto, algumas práticas são essenciais:

Reuniões de equipe regulares

Fonoaudiólogo, analista do comportamento e família devem se reunir periodicamente para alinhar objetivos, compartilhar progressos e garantir que as estratégias usadas em cada contexto sejam consistentes.

Programa unificado de comunicação

O vocabulário da CAA, as estratégias de prompt e as consequências usadas para respostas comunicativas devem ser as mesmas em todos os contextos — terapia de ABA, terapia de fono, escola e casa.

Treinamento da família

Os pais precisam entender e aplicar as estratégias de todos os profissionais. Não é viável que a criança aprenda a usar PECS apenas na sessão de fono se em casa a família não responde às tentativas comunicativas com a mesma consistência.

Generalização como objetivo explícito

Uma habilidade aprendida em terapia só tem valor real quando é generalizada para outros contextos, pessoas e materiais. A generalização deve ser planejada ativamente — não esperada para acontecer espontaneamente.

Como escolher as abordagens certas para seu filho

Não existe uma combinação universal que funcione para todas as crianças com autismo. Algumas considerações práticas:

  • A fonoaudiologia é indicada para praticamente todas as crianças com TEA — a comunicação é uma das áreas centralmente afetadas no autismo em todos os níveis de suporte.
  • A ABA é indicada especialmente quando há necessidade de trabalho sistemático de habilidades em múltiplas áreas, e quando há comportamentos que interferem na aprendizagem.
  • O PECS é indicado para crianças não-verbais ou minimamente verbais que precisam desenvolver iniciativa comunicativa. Para crianças com fala funcional, outros sistemas de CAA ou abordagens de linguagem naturalista podem ser mais adequados.
  • A escolha deve ser baseada em avaliação individual — o perfil comunicativo, cognitivo e comportamental de cada criança determina o que funciona melhor.

O ponto de partida mais sensato é a avaliação fonoaudiológica completa, que mapeará o perfil comunicativo da criança e orientará as indicações para as demais intervenções.

Conclusão

ABA, PECS e fonoaudiologia não competem — colaboram. Cada uma contribui com algo que as outras não oferecem plenamente, e a criança com autismo se beneficia do conjunto, desde que as abordagens sejam implementadas de forma articulada e consistente.

Para as famílias, o mais importante é entender o papel de cada profissional, garantir que eles se comuniquem entre si, e ser o elo de ligação que torna tudo isso coerente no dia a dia.

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Perguntas Frequentes

Meu filho tem TEA e já faz ABA. Precisa também de fonoaudiologia?

Na maioria dos casos, sim. O analista do comportamento trabalha comunicação dentro de um programa mais amplo, mas o fonoaudiólogo tem formação específica em linguagem que complementa a ABA. Especialmente para objetivos de linguagem mais complexos — pragmática, narrativa, compreensão linguística — a fonoaudiologia oferece ferramentas específicas que a ABA por si só não cobre plenamente.

PECS é gratuito ou precisa comprar materiais específicos?

O treinamento de profissionais no protocolo PECS é pago. Os materiais de figuras podem ser produzidos pelo próprio fonoaudiólogo usando softwares gratuitos como o Boardmaker (versão básica) ou o Symwriter. O essencial não é um kit comercial — é a aplicação correta do protocolo. O fonoaudiólogo orientará sobre os materiais mais adequados para o perfil do seu filho.

O PECS atrasa o desenvolvimento da fala?

Não — o oposto é verdadeiro. Estudos mostram consistentemente que a implementação do PECS está associada ao aumento de vocalização e, em muitos casos, ao surgimento ou expansão de fala funcional. O PECS parece funcionar como um “trampolim” — ao reduzir a frustração comunicativa e ao criar trocas comunicativas bem-sucedidas, cria condições favoráveis para a fala emergir.

Existe uma idade ideal para começar o PECS?

O PECS pode ser iniciado muito cedo — há relatos de implementação bem-sucedida a partir dos 18 meses. Não existe uma idade máxima. O que importa é o perfil comunicativo da criança: se há ausência ou insuficiência de iniciativa comunicativa funcional, o PECS pode ser indicado independentemente da idade.

Referências Bibliográficas

  1. Frost, L. & Bondy, A. (2002). The Picture Exchange Communication System Training Manual. 2ª ed. Pyramid Educational Consultants.
  2. Ganz, J.B. et al. (2012). A meta-analysis of single case research studies on aided augmentative and alternative communication systems with individuals with autism spectrum disorders. Journal of Autism and Developmental Disorders, 42(1), 60–74.
  3. Cooper, J.O., Heron, T.E. & Heward, W.L. (2020). Applied Behavior Analysis. 3ª ed. Pearson.
  4. Schreibman, L. et al. (2015). Naturalistic developmental behavioral interventions: Empirically validated treatments for autism spectrum disorder. Journal of Autism and Developmental Disorders, 45(8), 2411–2428.
  5. American Speech-Language-Hearing Association. Autism: Intervention. Disponível em: asha.org


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