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Neyre Tonhela

Fonoaudióloga • ✓ CRFa

10 min de leitura

A Chupeta Atrapalha a Fala? Mitos e Verdades

Infantil e Desenvolvimento

A Chupeta Prejudica a Fala? Mitos e Verdades com Base em Evidências

Um dos debates mais frequentes entre pais de bebês — respondido com clareza: o que a ciência diz sobre chupeta, fala, dentição e desenvolvimento orofacial.

“Mas a chupeta prejudica a fala?” É a pergunta que todo pai de bebê já ouviu ou fez, geralmente depois de receber opiniões conflitantes — de um lado a avó dizendo “toda criança usou e nenhuma ficou com defeito”, do outro o dentista falando sobre “mordida aberta”. E no meio disso, os pais tentando decidir o que fazer.

A resposta honesta é: depende — do tipo, da frequência, e principalmente de até quando a criança usa a chupeta. O uso precoce e moderado tem pouco impacto real; o uso prolongado além de 2 a 3 anos, sim, pode interferir no desenvolvimento orofacial e, indiretamente, na fala.

Vamos separar o que a ciência efetivamente mostra do que é mito, e o que isso significa na prática para você.

O que a ciência diz sobre chupeta e desenvolvimento da fala

A literatura científica sobre chupeta e desenvolvimento de linguagem não é tão dramática quanto muitos pais imaginam. Os estudos mais relevantes apontam para algumas conclusões consistentes:

  • O uso de chupeta em si não atrasa o desenvolvimento de linguagem em crianças com desenvolvimento típico.
  • O uso prolongado e intenso (especialmente além dos 2 anos, por muitas horas ao dia) está associado a alterações na oclusão dentária e no desenvolvimento do palato — o que pode, indiretamente, afetar a articulação de certos sons.
  • Crianças que usam chupeta muitas horas do dia têm menos oportunidade de vocalizar, balbuciar e se engajar em diálogos — o que pode reduzir o estímulo de linguagem, mas esse efeito é indireto e geralmente pequeno.
  • O impacto mais documentado é na mordida e no desenvolvimento do palato, não diretamente na linguagem.

Em resumo: a chupeta usada razoavelmente nos primeiros 2 anos de vida não é o vilão da fala que muitos imaginam. Mas o uso prolongado após os 2 anos, especialmente por muitas horas ao dia, sim merece atenção.

O impacto real da chupeta no desenvolvimento orofacial

O uso prolongado da chupeta pode levar a algumas alterações no sistema orofacial:

Mordida aberta anterior

A pressão contínua da chupeta pode impedir que os incisivos superiores e inferiores se aproximem normalmente, criando um espaço entre eles — a mordida aberta anterior. Em casos moderados, essa alteração costuma se corrigir sozinha após a retirada da chupeta, especialmente se feita antes dos 3 anos. Em casos mais intensos, pode necessitar de acompanhamento ortodôntico.

Palato ogival (arqueado)

O objeto na boca altera a pressão que a língua exerce sobre o palato durante o repouso. Com o uso muito prolongado, o palato pode se tornar mais elevado e estreito. Isso pode afetar a posição de repouso da língua e, em casos mais significativos, a articulação de sons que requerem elevação lingual ao palato.

Posição da língua

O hábito de chupeta pode interferir no desenvolvimento da posição de repouso correta da língua (ponta da língua atrás dos incisivos superiores, corpo em contato com o palato). Isso, por sua vez, pode afetar a deglutição e a postura orofacial geral.

Articulação de sons específicos

Em casos onde houve alteração significativa da mordida ou do palato, podem ser afetados sons que dependem do contato da língua com os dentes ou palato — como /t/, /d/, /n/, /l/, /s/, /z/. Mas isso ocorre apenas nos casos onde as alterações anatômicas são clinicamente significativas, não na maioria das crianças.

Mitos e verdades sobre chupeta e fala

✗ MITO — “A chupeta atrasa a fala automaticamente”

Falso. O uso de chupeta, por si só, não tem associação direta com atraso de linguagem em crianças com desenvolvimento típico. Crianças que usam chupeta falam no mesmo ritmo que crianças que não usam.

✓ VERDADE (parcial) — “A chupeta pode interferir no desenvolvimento da fala”

Verdadeiro, mas com condição: o uso prolongado e intenso (muitas horas por dia, além dos 2 anos) pode levar a alterações orofaciais que afetam indiretamente a articulação. O uso moderado e com retirada antes dos 2 anos tem impacto mínimo.

✗ MITO — “Chupeta é sempre prejudicial”

Falso. Em bebês nos primeiros meses, a sucção não-nutritiva tem função calmante, de regulação e até protetora (estudos mostram que o uso de chupeta está associado a menor risco de SMSI — Síndrome da Morte Súbita Infantil). O problema não é a chupeta em si, é o uso prolongado além do tempo adequado.

✓ VERDADE — “A chupeta pode interferir na amamentação nos primeiros dias”

Verdadeiro. A introdução precoce de chupeta (nas primeiras semanas de vida) pode interferir no estabelecimento da amamentação, por confundir o bebê entre a sucção do seio e da chupeta. A recomendação é esperar o aleitamento estar bem estabelecido antes de introduzir.

✓ VERDADE — “Retirar a chupeta antes dos 2 anos minimiza os riscos”

Verdadeiro. A maioria das alterações orofaciais associadas à chupeta se corrige espontaneamente quando a retirada ocorre antes dos 2 a 3 anos. O sistema orofacial infantil tem plasticidade que favorece a correção.

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Quando retirar a chupeta: recomendações baseadas em evidências

As principais organizações de saúde convergem para recomendações semelhantes:

  • Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP): retirada da chupeta idealmente antes dos 2 anos de idade, ou pelo menos limitar a seu uso apenas para dormir a partir dos 18 meses.
  • American Academy of Pediatric Dentistry (AAPD): incentiva a retirada antes dos 3 anos para minimizar risco de alterações dentárias.
  • Fono (motricidade orofacial): o ideal é a retirada gradual entre 18 e 24 meses, aproveitando a janela de maior plasticidade do sistema orofacial.

Após os 3 anos, as alterações orofaciais têm menor tendência à correção espontânea — e a retirada, embora ainda indicada, pode precisar de acompanhamento ortodôntico.

Como retirar a chupeta de forma gradual e sem trauma

Retirar a chupeta de um bebê ou criança pequena pode ser mais tranquilo do que parece, especialmente se feito de forma gradual:

  1. Reduza progressivamente o uso: comece limitando a chupeta a momentos específicos (apenas para dormir), depois apenas para o sono noturno, depois retire completamente.
  2. Substitua por outros confortos: ofereça alternativas sensoriais de conforto — um naninha, uma música especial para dormir, mais contato físico.
  3. Não reintroduza em momentos de estresse: é comum querer dar a chupeta de volta quando a criança está doente ou muito ansiosa. Tente resistir — a reintrodução torna a retirada mais difícil depois.
  4. Evite substituir por mamadeira: o hábito de mamadeira tem impactos orofaciais similares à chupeta, e trocar uma pelo outro não resolve o problema.
  5. Seja consistente: uma vez que decidiu retirar, mantenha. Ceder depois de alguns dias de choro dificulta o processo.

A maioria das crianças aceita bem a retirada gradual. Se houver resistência muito intensa, uma conversa com o pediatra ou fonoaudiólogo pode ajudar com estratégias personalizadas.

Conclusão

A chupeta não é um vilão — é um objeto que, usado com moderação e retirado no tempo certo, tem impacto mínimo no desenvolvimento da fala e do sistema orofacial. O problema está no uso prolongado além dos 2 anos, especialmente muitas horas por dia.

A recomendação prática: aproveite a janela entre 18 e 24 meses para iniciar a retirada gradual — o sistema ainda tem plasticidade alta para se adaptar, e a criança ainda não está tão apegada ao hábito quanto um pouco mais tarde.

Se o seu filho já está além dos 3 anos usando chupeta, ou se você percebe alterações na mordida ou na fala, uma avaliação fonoaudiológica de motricidade orofacial é o próximo passo.

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Perguntas Frequentes

Meu filho tem 4 anos e ainda usa chupeta. O que fazer?

Aos 4 anos, o uso de chupeta está além do recomendado e pode já estar causando alterações na mordida. A retirada ainda é possível e indicada — quanto mais cedo, melhor. Uma avaliação com fonoaudiólogo de motricidade orofacial pode ajudar a identificar se já há impacto no sistema orofacial e orientar a melhor estratégia de retirada. Pode também ser útil envolver o odontopediatra para avaliar a mordida.

A chupeta é pior do que o dedo?

Do ponto de vista orofacial, ambos têm impacto similar. A chupeta tem uma pequena vantagem: é mais fácil de retirar do que o hábito de sucção de dedo, que a criança sempre tem à disposição. O dedo também pode gerar pressão mais localizada e intensa sobre os incisivos. Ambos os hábitos devem ser retirados antes dos 3 anos.

A mordida aberta causada pela chupeta se corrige sozinha?

Na maioria dos casos, sim — especialmente quando a chupeta é retirada antes dos 3 anos. O sistema orofacial infantil tem alta plasticidade, e a mordida tende a se fechar naturalmente com o desenvolvimento. Após os 3-4 anos, a correção espontânea é menos previsível e pode precisar de acompanhamento ortodôntico.

Existe tipo de chupeta que é mais indicado?

A chupeta ortodôntica (com formato achatado, similar ao bico do seio) tem sido recomendada como alternativa com menor impacto no desenvolvimento do palato e da mordida, comparada à chupeta tradicional arredondada. No entanto, as evidências científicas sobre essa diferença ainda são limitadas. De qualquer forma, o formato não elimina o risco — a retirada no tempo adequado é o fator mais importante.

Referências Bibliográficas

  1. Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de Orientação — Hábitos de Sucção Não-Nutritiva. sbp.com.br
  2. Bishara, S.E. et al. (2006). The effects of pacifier use and its interactions with breastfeeding on the development of the dentition. Journal of the American Dental Association.
  3. Duncan, K. et al. (2008). Pacifier use and orofacial development. Pediatric Dentistry.
  4. Ovsenik, M. (2009). Incorrect orofacial functions until 5 years of age and their association with posterior crossbite. American Journal of Orthodontics and Dentofacial Orthopedics.
  5. Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia. Posicionamento sobre hábitos orais em crianças. sbfa.org.br


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