Introdução
A fissura labiopalatina é uma das malformações congênitas mais comuns do ser humano. No Brasil, estima-se que uma em cada 650 crianças nasça com algum tipo de fissura — o que representa cerca de 5.800 novos casos por ano.
Para os pais que recebem esse diagnóstico — seja no pré-natal ou ao nascimento — a notícia pode ser impactante. Mas é fundamental saber: a fissura labiopalatina tem tratamento, a reabilitação é altamente eficaz e a grande maioria das crianças alcança fala, alimentação e qualidade de vida plenas.
O fonoaudiólogo é um dos profissionais mais importantes nessa jornada — acompanhando a criança desde os primeiros dias de vida (ajudando na amamentação) até a adolescência (garantindo que a fala e a ressonância nasal estejam adequadas).
O que é fissura labiopalatina?
A fissura labiopalatina é uma abertura (fenda) no lábio e/ou no palato (céu da boca) que ocorre durante a formação do rosto do bebê, entre a 4ª e a 12ª semana de gestação. É resultado de uma falha na fusão das estruturas faciais durante o desenvolvimento embrionário.
Existem diferentes tipos: a fissura labial (apenas no lábio), a fissura palatina (apenas no palato) e a fissura labiopalatina (no lábio e no palato). Pode ser unilateral (de um lado) ou bilateral (dos dois lados), e variar de uma pequena fenda no lábio até uma abertura completa que se estende do lábio ao palato mole.
As causas são multifatoriais, envolvendo predisposição genética e fatores ambientais (deficiência de ácido fólico, uso de certos medicamentos, tabagismo, diabetes gestacional). Na maioria dos casos, a fissura não está associada a outras condições — a criança é saudável e o desenvolvimento geral é normal.
O papel do fonoaudiólogo na equipe
O tratamento da fissura labiopalatina é realizado por uma equipe multidisciplinar que tipicamente inclui cirurgião plástico, fonoaudiólogo, ortodontista, otorrinolaringologista, psicólogo, pediatra e assistente social. O fonoaudiólogo é um dos profissionais que acompanha por mais tempo — desde o nascimento até a alta no final da adolescência.
No nascimento: alimentação
O primeiro desafio é a alimentação. Dependendo do tipo e extensão da fissura, o bebê pode ter dificuldade para criar a pressão de sucção necessária para mamar no seio. O fono avalia a capacidade de sucção e orienta a melhor forma de alimentar: posicionamento, tipo de bico ou mamadeira adaptada, manejo de engasgos e monitoramento do ganho de peso.
É importante saber: muitos bebês com fissura conseguem mamar no seio com adaptações. O fono ajuda a encontrar a melhor estratégia para cada caso.
Antes da cirurgia: estimulação
Enquanto a cirurgia é aguardada (a queiloplastia — correção do lábio — costuma ser feita por volta dos 3 meses; a palatoplastia — correção do palato — por volta dos 12 meses), o fono orienta estimulação de linguagem e acompanha o desenvolvimento da comunicação.
Após a cirurgia do palato: fala e ressonância
Após a palatoplastia, o foco do fono passa a ser o desenvolvimento da fala e a adequação da ressonância nasal. O palato é essencial para a fala: ele separa a cavidade oral da nasal e permite que o ar seja direcionado pela boca para produzir os sons. Se o palato não funciona adequadamente após a cirurgia (insuficiência velofaríngea), o ar escapa pelo nariz — resultando em uma fala “anasalada” (hipernasalidade) e distorções nos sons.
O fonoaudiólogo trabalha: estimulação da produção de sons orais (plosivos como “p”, “b”, “t”, “d” — que exigem pressão oral), técnicas para direcionar o fluxo de ar pela boca, adequação da ressonância nasal e eliminação de articulações compensatórias (padrões de fala que a criança desenvolve para compensar a dificuldade — como produzir sons na garganta em vez de na boca).
Na fase escolar: refinamento e apoio
Algumas crianças precisam de acompanhamento fonoaudiológico durante a fase escolar para refinamento da fala, melhora da inteligibilidade e, quando necessário, suporte para questões de linguagem escrita.
Telefonoaudiologia e fissura labiopalatina
O acompanhamento fonoaudiológico de crianças com fissura labiopalatina pode se beneficiar significativamente da teleconsulta, regulamentada pela Resolução CFFa nº 785/2025. Muitas famílias moram longe dos centros especializados e enfrentam dificuldades de deslocamento para sessões presenciais frequentes.
A teleconsulta permite sessões regulares de terapia de fala e ressonância, orientação aos pais sobre estimulação de linguagem em casa, acompanhamento entre as cirurgias e monitoramento da evolução sem necessidade de viagem. Avaliações específicas (como nasoendoscopia para insuficiência velofaríngea) continuam sendo presenciais, mas o acompanhamento terapêutico pode ser mantido online.
Perguntas frequentes (FAQ)
Meu bebê com fissura pode mamar no seio?
Depende do tipo de fissura. Bebês com fissura apenas labial frequentemente conseguem mamar no seio com adaptações. Fissuras que envolvem o palato dificultam a criação de pressão negativa para sucção — nesses casos, mamadeiras adaptadas (como a Haberman Feeder) podem ser necessárias. O fono orienta a melhor opção para cada caso.
A criança com fissura vai falar normalmente?
Com a cirurgia adequada e o acompanhamento fonoaudiológico, a grande maioria das crianças alcança fala inteligível e funcional. Algumas podem precisar de terapia mais prolongada, e em alguns casos uma segunda cirurgia (faringoplastia) é necessária para corrigir insuficiência velofaríngea persistente.
Quando começa o tratamento fonoaudiológico?
Desde o nascimento. O fono acompanha a alimentação nos primeiros dias, orienta a estimulação de linguagem antes das cirurgias e inicia a terapia de fala formal após a correção do palato.
O plano de saúde cobre o tratamento?
A maioria dos planos de saúde cobre o tratamento cirúrgico e a reabilitação fonoaudiológica da fissura labiopalatina. O Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC-USP, o “Centrinho” de Bauru) é referência mundial e atende pelo SUS.
A fissura labiopalatina é hereditária?
Há um componente genético, mas não é determinístico. Se um dos pais tem fissura, a chance de o filho nascer com fissura é de cerca de 3-5%. Se já existe um filho com fissura, a chance para o próximo é similar. O aconselhamento genético pode ajudar famílias a entenderem os riscos.
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Referências Bibliográficas
- Trindade, I. E. K.; Silva Filho, O. G. Fissuras Labiopalatinas: Uma Abordagem Interdisciplinar. Santos Editora, 2007.
- Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC-USP). Protocolos Clínicos.
- Conselho Federal de Fonoaudiologia. Resolução CFFa nº 785/2025 — Telefonoaudiologia.
- World Health Organization. Global Registry and Database on Craniofacial Anomalies.
- Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia. Diretrizes para Reabilitação de Fissuras.