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Neyre Tonhela

Fonoaudióloga • ✓ CRFa

6 min de leitura

Fissura Labiopalatina: Reabilitação Completa com Fonoaudiologia

Introdução

A fissura labiopalatina é uma das malformações congênitas mais comuns do ser humano. No Brasil, estima-se que uma em cada 650 crianças nasça com algum tipo de fissura — o que representa cerca de 5.800 novos casos por ano.

Para os pais que recebem esse diagnóstico — seja no pré-natal ou ao nascimento — a notícia pode ser impactante. Mas é fundamental saber: a fissura labiopalatina tem tratamento, a reabilitação é altamente eficaz e a grande maioria das crianças alcança fala, alimentação e qualidade de vida plenas.

O fonoaudiólogo é um dos profissionais mais importantes nessa jornada — acompanhando a criança desde os primeiros dias de vida (ajudando na amamentação) até a adolescência (garantindo que a fala e a ressonância nasal estejam adequadas).

O que é fissura labiopalatina?

A fissura labiopalatina é uma abertura (fenda) no lábio e/ou no palato (céu da boca) que ocorre durante a formação do rosto do bebê, entre a 4ª e a 12ª semana de gestação. É resultado de uma falha na fusão das estruturas faciais durante o desenvolvimento embrionário.

Existem diferentes tipos: a fissura labial (apenas no lábio), a fissura palatina (apenas no palato) e a fissura labiopalatina (no lábio e no palato). Pode ser unilateral (de um lado) ou bilateral (dos dois lados), e variar de uma pequena fenda no lábio até uma abertura completa que se estende do lábio ao palato mole.

As causas são multifatoriais, envolvendo predisposição genética e fatores ambientais (deficiência de ácido fólico, uso de certos medicamentos, tabagismo, diabetes gestacional). Na maioria dos casos, a fissura não está associada a outras condições — a criança é saudável e o desenvolvimento geral é normal.

O papel do fonoaudiólogo na equipe

O tratamento da fissura labiopalatina é realizado por uma equipe multidisciplinar que tipicamente inclui cirurgião plástico, fonoaudiólogo, ortodontista, otorrinolaringologista, psicólogo, pediatra e assistente social. O fonoaudiólogo é um dos profissionais que acompanha por mais tempo — desde o nascimento até a alta no final da adolescência.

No nascimento: alimentação

O primeiro desafio é a alimentação. Dependendo do tipo e extensão da fissura, o bebê pode ter dificuldade para criar a pressão de sucção necessária para mamar no seio. O fono avalia a capacidade de sucção e orienta a melhor forma de alimentar: posicionamento, tipo de bico ou mamadeira adaptada, manejo de engasgos e monitoramento do ganho de peso.

É importante saber: muitos bebês com fissura conseguem mamar no seio com adaptações. O fono ajuda a encontrar a melhor estratégia para cada caso.

Antes da cirurgia: estimulação

Enquanto a cirurgia é aguardada (a queiloplastia — correção do lábio — costuma ser feita por volta dos 3 meses; a palatoplastia — correção do palato — por volta dos 12 meses), o fono orienta estimulação de linguagem e acompanha o desenvolvimento da comunicação.

Após a cirurgia do palato: fala e ressonância

Após a palatoplastia, o foco do fono passa a ser o desenvolvimento da fala e a adequação da ressonância nasal. O palato é essencial para a fala: ele separa a cavidade oral da nasal e permite que o ar seja direcionado pela boca para produzir os sons. Se o palato não funciona adequadamente após a cirurgia (insuficiência velofaríngea), o ar escapa pelo nariz — resultando em uma fala “anasalada” (hipernasalidade) e distorções nos sons.

O fonoaudiólogo trabalha: estimulação da produção de sons orais (plosivos como “p”, “b”, “t”, “d” — que exigem pressão oral), técnicas para direcionar o fluxo de ar pela boca, adequação da ressonância nasal e eliminação de articulações compensatórias (padrões de fala que a criança desenvolve para compensar a dificuldade — como produzir sons na garganta em vez de na boca).

Na fase escolar: refinamento e apoio

Algumas crianças precisam de acompanhamento fonoaudiológico durante a fase escolar para refinamento da fala, melhora da inteligibilidade e, quando necessário, suporte para questões de linguagem escrita.

Telefonoaudiologia e fissura labiopalatina

O acompanhamento fonoaudiológico de crianças com fissura labiopalatina pode se beneficiar significativamente da teleconsulta, regulamentada pela Resolução CFFa nº 785/2025. Muitas famílias moram longe dos centros especializados e enfrentam dificuldades de deslocamento para sessões presenciais frequentes.

A teleconsulta permite sessões regulares de terapia de fala e ressonância, orientação aos pais sobre estimulação de linguagem em casa, acompanhamento entre as cirurgias e monitoramento da evolução sem necessidade de viagem. Avaliações específicas (como nasoendoscopia para insuficiência velofaríngea) continuam sendo presenciais, mas o acompanhamento terapêutico pode ser mantido online.

Perguntas frequentes (FAQ)

Meu bebê com fissura pode mamar no seio?

Depende do tipo de fissura. Bebês com fissura apenas labial frequentemente conseguem mamar no seio com adaptações. Fissuras que envolvem o palato dificultam a criação de pressão negativa para sucção — nesses casos, mamadeiras adaptadas (como a Haberman Feeder) podem ser necessárias. O fono orienta a melhor opção para cada caso.

A criança com fissura vai falar normalmente?

Com a cirurgia adequada e o acompanhamento fonoaudiológico, a grande maioria das crianças alcança fala inteligível e funcional. Algumas podem precisar de terapia mais prolongada, e em alguns casos uma segunda cirurgia (faringoplastia) é necessária para corrigir insuficiência velofaríngea persistente.

Quando começa o tratamento fonoaudiológico?

Desde o nascimento. O fono acompanha a alimentação nos primeiros dias, orienta a estimulação de linguagem antes das cirurgias e inicia a terapia de fala formal após a correção do palato.

O plano de saúde cobre o tratamento?

A maioria dos planos de saúde cobre o tratamento cirúrgico e a reabilitação fonoaudiológica da fissura labiopalatina. O Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC-USP, o “Centrinho” de Bauru) é referência mundial e atende pelo SUS.

A fissura labiopalatina é hereditária?

Há um componente genético, mas não é determinístico. Se um dos pais tem fissura, a chance de o filho nascer com fissura é de cerca de 3-5%. Se já existe um filho com fissura, a chance para o próximo é similar. O aconselhamento genético pode ajudar famílias a entenderem os riscos.

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Referências Bibliográficas

  1. Trindade, I. E. K.; Silva Filho, O. G. Fissuras Labiopalatinas: Uma Abordagem Interdisciplinar. Santos Editora, 2007.
  2. Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC-USP). Protocolos Clínicos.
  3. Conselho Federal de Fonoaudiologia. Resolução CFFa nº 785/2025 — Telefonoaudiologia.
  4. World Health Organization. Global Registry and Database on Craniofacial Anomalies.
  5. Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia. Diretrizes para Reabilitação de Fissuras.

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Fissura Labiopalatina: Reabilitação Fonoaudiológica Completa

Motricidade Orofacial

Fissura Labiopalatina: Reabilitação Fonoaudiológica do Nascimento à Adolescência

A fissura labiopalatina é a malformação congênita mais comum. O fonoaudiólogo acompanha a criança desde os primeiros dias de vida — e essa continuidade define o prognóstico de comunicação.

A fissura labiopalatina afeta 1 em cada 650 nascimentos no Brasil — tornando-a a malformação craniofacial congênita mais comum. E o fonoaudiólogo acompanha essas crianças desde os primeiros dias de vida até a adolescência, em uma das reabilitações mais longas e multidisciplinares da fonoaudiologia pediátrica.

A boa notícia é clara: com equipe adequada e intervenção oportuna, crianças com fissura labiopalatina têm excelente prognóstico de comunicação funcional e qualidade de vida plena. O diagnóstico, que é um choque para a maioria das famílias, abre caminho para um processo de cuidado bem estruturado — especialmente nos centros de referência como o CENTRINHO/USP Bauru.

Tipos de fissura e impacto fonoaudiológico

As fissuras podem envolver o lábio, o palato ou ambos — e a extensão do comprometimento determina os desafios fonoaudiológicos específicos:

  • Fissura labial isolada (FL): não envolve o palato — impacto principalmente estético e na amamentação. Menor repercussão direta na fala, mas pode afetar a articulação de bilabiais se houver sequela pós-cirúrgica.
  • Fissura palatina isolada (FP): envolve o palato duro e/ou o véu palatino sem comprometer o lábio. Afeta a fala diretamente pela comunicação entre as cavidades oral e nasal durante a fonação. Hipernasalidade e compensações articulatórias são consequências frequentes.
  • Fissura labiopalatina (FLP): a forma mais extensa — compromete lábio e palato. Maior complexidade em todos os aspectos: amamentação, deglutição, fala, audição, desenvolvimento dental e craniofacial.
  • Fissura submucosa: a mucosa está íntegra mas o músculo do véu palatino é deficiente — frequentemente não diagnosticada ao nascimento, identificada quando a criança desenvolve hipernasalidade ou voz anasalada.

Período neonatal: amamentação e alimentação

O recém-nascido com fissura palatina tem dificuldade de criar vácuo durante a sucção — a comunicação entre as cavidades oral e nasal impede a pressão negativa necessária para sugar do seio ou de mamadeiras convencionais. Isso coloca a nutrição imediata como a primeira preocupação.

O fonoaudiólogo neonatal atua desde os primeiros dias:

  • Orientação de posicionamento: o bebê deve ser alimentado em posição mais vertical — para reduzir o escape de leite pelo nariz
  • Mamadeiras especiais: mamadeiras com bico maleável (Haberman Feeder, bico longo macio, sistemas específicos para fissura) que o bebê consegue comprimir com a língua em vez de sugar — contornando a incapacidade de criar vácuo
  • Orientação sobre amamentação: para fissuras labiais sem envolvimento palatino, o aleitamento materno pode ser possível com adaptações. Para fissuras palatinas, é geralmente inviável — mas a mãe pode ordenhar e oferecer em mamadeira adaptada.
  • Estimulação oral: estímulos táteis na região orofacial para promover o desenvolvimento sensoriomotor

Pré e pós-operatório das cirurgias

O tratamento cirúrgico da fissura labiopalatina é um processo longo com múltiplas intervenções ao longo dos anos. O fonoaudiólogo participa em diferentes momentos:

  • Queiloplastia (correção do lábio): geralmente realizada entre 3 e 6 meses. O fonoaudiólogo orienta sobre a retomada da alimentação pós-operatória e o cuidado com a cicatriz.
  • Palatoplastia (correção do palato): realizada geralmente entre 9 e 18 meses — momento mais crítico para a fonoaudiologia. O fechamento do palato cria as condições anatômicas para a fala normal. O fonoaudiólogo avalia a mobilidade do véu pós-operatório e inicia o trabalho de reabilitação das funções palatinas.
  • Faringoplastia (para insuficiência velofaríngea residual): quando a palatoplastia não resulta em fechamento velofaríngeo adequado para a fala, uma segunda cirurgia pode ser necessária. O fonoaudiólogo participa da indicação e da reabilitação pós-operatória.

Reabilitação da fala: dos 2 aos 6 anos

O período de 2 a 6 anos é crítico para o desenvolvimento da fala em crianças com fissura. Os desafios específicos incluem:

  • Articulação compensatória: na ausência de palato funcional, as crianças desenvolvem padrões articulatórios alterados — como a parada glotal (oclusão na glote em vez das cordas vocais para compensar a perda de pressão oral) e a fricativa faríngea. Esses padrões se instalam cedo e requerem intervenção fonoaudiológica específica para modificação.
  • Hipernasalidade: quando há insuficiência velofaríngea, o ar escapa excessivamente pela cavidade nasal durante a fala — dando a voz anasalada característica. Requer avaliação para decisão entre terapia, cirurgia ou ambas.
  • Imprecisão articulatória: especialmente para consoantes que exigem pressão intraoral — /p/, /b/, /t/, /d/, /k/, /g/, /s/, /z/, /f/, /v/.

A terapia fonoaudiológica trabalha a articulação de forma sistemática, eliminando as compensações e estabelecendo o padrão articulatório correto dentro das possibilidades anatômicas existentes.

Hipernasalidade e insuficiência velofaríngea

A insuficiência velofaríngea (IVF) — incapacidade do véu palatino de fechar completamente a nasofaringe durante a fala — é uma das complicações mais impactantes na comunicação de crianças com fissura palatina. Resulta em hipernasalidade e em dificuldade de produzir consoantes que exigem pressão oral.

A avaliação da IVF inclui: avaliação perceptivo-auditiva da fala (o fonoaudiólogo analisa o grau de hipernasalidade), nasofibrolaringoscopia e videofluoroscopia de fala — exames que visualizam o movimento do véu durante a fonação. Esses exames são fundamentais para decidir entre reabilitação fonoaudiológica e nova intervenção cirúrgica.

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Audição e otites em crianças com fissura

Crianças com fissura palatina têm risco muito aumentado de otite média com efusão — o líquido no ouvido médio causado pela disfunção da tuba auditiva (que conecta o ouvido médio à nasofaringe e é diretamente afetada pela fissura). Essa otite frequentemente causa perda auditiva de condução que pode afetar o desenvolvimento da fala se não tratada.

O monitoramento auditivo periódico com imitanciometria e audiometria é parte obrigatória do cuidado em centros de fissura. O fonoaudiólogo de audiologia e o otorrinolaringologista trabalham em parceria para garantir audição adequada durante o período crítico de desenvolvimento da linguagem.

A equipe de fissura labiopalatina

Fissura labiopalatina é tratada em centros especializados com equipe multidisciplinar integrada — não por profissionais isolados. A equipe mínima recomendada inclui: cirurgião plástico/buco-maxilofacial, ortodontista, fonoaudiólogo (especializado em fissura, com experiência em amamentação, fala e insuficiência velofaríngea), otorrinolaringologista, psicólogo e assistente social.

No Brasil, o CENTRINHO (Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais — USP Bauru) é centro de referência mundial no tratamento de fissuras. O SUS cobre o tratamento da fissura labiopalatina por lei (Lei 9.770/1999) nos centros credenciados.

Conclusão

A fissura labiopalatina é uma condição que exige cuidado de longo prazo, equipe especializada e família comprometida. O fonoaudiólogo acompanha essa jornada em cada fase — da amamentação na maternidade à comunicação plena na adolescência. Com o suporte certo, crianças com fissura têm condições de desenvolver comunicação funcional e qualidade de vida plena.

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Perguntas Frequentes

A fissura labiopalatina é diagnosticada durante a gravidez?

A fissura labial — especialmente unilateral — pode ser identificada na ultrassonografia morfológica do segundo trimestre com boa sensibilidade. A fissura palatina isolada é mais difícil de visualizar na ultrassonografia e muitas vezes só é diagnosticada após o nascimento. O diagnóstico pré-natal permite que a família receba orientação e planejamento antes do parto.

O tratamento da fissura é coberto pelo SUS?

Sim. A Lei 9.770/1999 garante atendimento multidisciplinar gratuito para portadores de fissura labiopalatina no SUS. Centros de referência em todo o Brasil (incluindo o CENTRINHO/USP Bauru) oferecem cirurgias, fonoaudiologia, ortodontia e psicologia pelo SUS.

A criança com fissura vai desenvolver fala normal?

Com tratamento adequado — equipe especializada, cirurgias no momento certo e reabilitação fonoaudiológica consistente — a grande maioria das crianças com fissura labiopalatina desenvolve fala funcional e comunicação que não as distingue de crianças sem fissura. O prognóstico é muito favorável quando o tratamento começa cedo.

Referências Bibliográficas

  1. Trindade, I.E.K. & Silva Filho, O.G. (2007). Fissuras Labiopalatinas: Uma Abordagem Interdisciplinar. Santos.
  2. CENTRINHO/USP Bauru. Protocolo de Atendimento. centrinho.usp.br
  3. Brasil. Lei 9.770, de 19 de dezembro de 1998. Atendimento a portadores de fissuras labiopalatinas.
  4. Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia. Nota sobre Fissura Labiopalatina. sbfa.org.br

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