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Neyre Tonhela

Fonoaudióloga • ✓ CRFa

6 min de leitura

Fonoaudiologia Escolar: O Que o Fonoaudiólogo Faz na Escola?

Introdução

Quando se pensa em fonoaudiólogo, a imagem mais comum é de um consultório com crianças fazendo exercícios de fala. Mas existe um campo de atuação que muitos pais e até educadores desconhecem: a fonoaudiologia escolar — ou, como é oficialmente reconhecida pelo CFFa, a fonoaudiologia educacional.

O fonoaudiólogo que atua na escola não está lá apenas para “corrigir a fala” de alunos. Seu trabalho vai muito além: ele contribui para que o ambiente escolar favoreça o desenvolvimento da comunicação, da linguagem oral e escrita, da audição e das habilidades que sustentam a aprendizagem de todos os alunos.

É um trabalho de promoção e prevenção — e também de identificação precoce de dificuldades que, quanto antes tratadas, menos impacto terão na vida escolar e emocional da criança.

O que faz o fonoaudiólogo na escola?

A atuação do fonoaudiólogo escolar pode ser dividida em quatro frentes principais.

Promoção da saúde comunicativa

O fonoaudiólogo desenvolve programas que beneficiam todos os alunos — não apenas aqueles com dificuldades. Isso inclui oficinas de consciência fonológica para turmas de educação infantil e 1º ano (atividades com rimas, segmentação silábica, identificação de sons — que são pré-requisitos da alfabetização), orientações sobre saúde vocal para professores e alunos, campanhas sobre saúde auditiva e programas de incentivo à leitura e à narrativa oral.

Prevenção e identificação precoce

Uma das contribuições mais valiosas do fono na escola é a triagem. Ele pode realizar avaliações coletivas que identificam crianças com sinais de risco para dificuldades de linguagem, fala, audição ou aprendizagem — antes que essas dificuldades se consolidem em fracasso escolar.

A triagem auditiva escolar, por exemplo, pode identificar crianças com perdas leves que passaram despercebidas e que impactam diretamente o aprendizado. A triagem de linguagem no início da alfabetização pode sinalizar crianças com fragilidades fonológicas que se beneficiariam de estimulação preventiva.

Assessoria a professores

O fonoaudiólogo orienta professores sobre estratégias de comunicação em sala de aula: como adaptar a linguagem para alunos com dificuldades, como favorecer a participação oral de crianças tímidas ou com alterações de fala, como identificar sinais de alerta para encaminhamento, e como usar estratégias de consciência fonológica integradas ao currículo regular.

Essa assessoria é especialmente valiosa para professores que recebem alunos com deficiência incluídos na sala regular — o fono ajuda a adaptar a comunicação e os materiais para garantir a acessibilidade.

Encaminhamento e acompanhamento

Quando a triagem identifica uma criança que precisa de atendimento individualizado, o fonoaudiólogo escolar encaminha para avaliação clínica (que pode ser presencial ou por teleconsulta). Ele também acompanha o progresso dos alunos em terapia, articulando com o fonoaudiólogo clínico e com a equipe pedagógica.

Fonoaudiologia escolar vs. fonoaudiologia clínica

É importante distinguir os dois campos. O fonoaudiólogo escolar não faz terapia individual dentro da escola — isso é papel da fonoaudiologia clínica. Na escola, o foco é coletivo: programas, triagens, orientações e assessoria.

Na clínica (ou na teleconsulta), o foco é individual: avaliação diagnóstica, terapia com metas específicas, acompanhamento da evolução.

Os dois campos se complementam. O fono escolar identifica, o fono clínico trata. E o ideal é que eles se comuniquem — compartilhando informações (com consentimento dos pais) para que o trabalho terapêutico se reflita no ambiente escolar e vice-versa.

Por que toda escola deveria ter um fonoaudiólogo?

Dados da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia estimam que entre 10% e 25% das crianças em idade escolar apresentam alguma alteração de fala, linguagem ou audição. Muitas dessas alterações, se não identificadas e tratadas, evoluem para dificuldades de aprendizagem, fracasso escolar e evasão.

A presença do fonoaudiólogo na escola é uma estratégia de saúde pública: previne problemas maiores, reduz a necessidade de encaminhamentos tardios, apoia professores sobrecarregados e garante que mais crianças cheguem ao final do ensino fundamental sabendo ler e escrever com competência.

Alguns municípios brasileiros já contam com fonoaudiólogos na rede de educação — seja vinculados à secretaria de educação, à saúde, ou em programas como o NASF (Núcleo Ampliado de Saúde da Família). A tendência é de expansão desse modelo.

Telefonoaudiologia e apoio escolar

Mesmo quando a escola não tem fonoaudiólogo presencial, a telefonoaudiologia pode preencher parte dessa lacuna. É possível realizar sessões de orientação a professores e coordenadores por videochamada, desenvolver programas de consciência fonológica que o professor aplica em sala com supervisão remota do fono, e oferecer teleconsulta direta para os alunos identificados em triagem.

A Resolução CFFa nº 785/2025 regulamenta essas atividades, permitindo que o fonoaudiólogo atue de forma remota tanto na dimensão clínica quanto na educacional.

Perguntas frequentes

A escola é obrigada a ter fonoaudiólogo?

Atualmente, não existe uma lei federal que obrigue todas as escolas a terem fonoaudiólogo. Porém, existem projetos de lei em tramitação e alguns municípios já incluem o profissional na rede. A Lei nº 13.935/2019 tornou obrigatória a presença de psicólogos e assistentes sociais na rede pública — e há iniciativas para incluir o fonoaudiólogo.

O fono na escola substitui a terapia clínica?

Não. O trabalho escolar é de promoção, prevenção e assessoria. Se a criança precisa de terapia individualizada, será encaminhada para atendimento clínico (presencial ou por teleconsulta). Os dois são complementares.

Como pedir para a escola encaminhar meu filho ao fono?

Converse com a coordenação ou com a professora. Relate suas observações de forma objetiva: “percebi que meu filho tem dificuldade em X desde Y tempo”. Peça um relatório escolar e busque avaliação fonoaudiológica por conta própria se a escola não tiver o profissional.

O fono escolar pode diagnosticar dislexia?

O fono escolar pode identificar sinais de risco e encaminhar para avaliação diagnóstica. O diagnóstico de dislexia é feito em contexto clínico, por equipe multidisciplinar (fonoaudiólogo, neuropsicólogo, neurologista).

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Referências Bibliográficas

  1. Conselho Federal de Fonoaudiologia. Resolução CFFa nº 786/2025 — Especialidades da Fonoaudiologia (inclui Fonoaudiologia Educacional).
  2. Conselho Federal de Fonoaudiologia. Resolução CFFa nº 785/2025 — Telefonoaudiologia.
  3. Brasil. Lei nº 13.935/2019 — Psicólogos e assistentes sociais na educação básica.
  4. Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia. Guia de Atuação do Fonoaudiólogo na Educação.
  5. Berberian, A. P. et al. Fonoaudiologia e educação: um encontro histórico. Plexus Editora, 2007.

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