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Neyre Tonhela

Fonoaudióloga • ✓ CRFa

10 min de leitura

Língua Presa em Bebê: O Que É, Como Identificar e O Que Fazer

Infantil e Desenvolvimento

Língua Presa em Bebê: O Que É, Como Identificar e O Que Fazer

O freio lingual curto é mais comum do que se imagina e pode afetar a amamentação e o desenvolvimento da fala. Entenda o que é o teste da linguinha e quando a avaliação é necessária.

Você notou que seu bebê tem dificuldade para mamar, ou que a língua dele não sobe quando ele chora? Talvez a enfermeira na maternidade tenha mencionado “freio lingual”. Seja qual for o caminho que te trouxe até aqui, você está no lugar certo.

A língua presa — ou anquiloglossia — é uma condição em que o freio lingual (a membrana que conecta a língua ao assoalho da boca) é mais curto, grosso ou inserido de forma atípica, limitando os movimentos da língua. Ela afeta cerca de 4 a 10% dos recém-nascidos e pode ter impacto real na amamentação e, mais tarde, no desenvolvimento da fala.

No Brasil, existe uma lei específica que torna obrigatória a avaliação do freio lingual em todos os bebês nas maternidades. Mas nem sempre essa avaliação é feita com a atenção necessária — e é por isso que vale entender o assunto.

O que é língua presa (anquiloglossia)

O freio lingual é uma dobra de mucosa normal que todos temos — ela conecta a face inferior da língua ao assoalho da boca. Quando esse freio é mais curto, mais espesso, inserido muito próximo à ponta da língua, ou quando está tenso demais, ele pode restringir os movimentos da língua.

A anquiloglossia (o nome técnico da língua presa) existe em diferentes graus:

  • Anquiloglossia anterior: o freio está inserido próximo à ponta da língua, visível. É a forma mais reconhecida.
  • Anquiloglossia posterior (ou submucosa): o freio está mais profundo, coberto por mucosa, mais difícil de identificar visualmente. Pode ser tão ou mais limitante do que a anterior, mas frequentemente passa despercebida.

Não é apenas sobre comprimento — a elasticidade e a inserção do freio também determinam o quanto ele limita a mobilidade da língua.

O teste da linguinha: o que é e por que é obrigatório

A Lei 13.002/2014, conhecida como “Lei da Linguinha”, determina que todos os recém-nascidos em território brasileiro sejam avaliados quanto à presença de alterações do freio lingual antes da alta da maternidade. A avaliação deve ser feita por profissional habilitado — médico, cirurgião-dentista ou fonoaudiólogo.

O instrumento mais utilizado é o Protocolo de Avaliação do Frênulo Lingual do Bebê (PAFL), desenvolvido por Martinelli e colaboradores, que avalia:

  • A aparência e posição do freio lingual
  • A mobilidade da língua em diferentes posições
  • A função de sucção
  • O histórico de amamentação

O resultado do protocolo classifica o freio como: sem alteração, alteração leve, alteração moderada ou alteração grave — o que orienta a necessidade ou urgência de tratamento.

Se você não recebeu esse protocolo na maternidade, ou se recebeu mas ainda tem dúvidas sobre o resultado, um fonoaudiólogo pode realizar a avaliação a qualquer momento.

Sinais de língua presa que aparecem na amamentação

A amamentação é frequentemente onde o impacto do freio lingual curto aparece primeiro. A língua tem um papel fundamental na sucção — ela deve elevar, estender e fazer movimentos ondulatórios para extrair o leite de forma eficiente.

Possíveis sinais de que o freio está interferindo na amamentação:

No bebê

  • Dificuldade de pega — não consegue abrir bem a boca ou fica soltando o peito
  • Suga por pouco tempo e larga, parecendo cansado
  • Ruído de estalos ou clicks durante a mamada
  • Engole muita bolha de ar (gases frequentes)
  • Ganha peso abaixo do esperado nas primeiras semanas
  • A língua tem formato de coração quando elevada (sinal visual do freio anterior)

Na mãe

  • Dor intensa durante a amamentação — além do desconforto normal das primeiras semanas
  • Fissuras e feridas nos mamilos que não cicatrizam
  • Sensação de que o bebê “está sugando só a ponta”
  • Ingurgitamento frequente por mamada ineficiente
  • Queda na produção de leite por estímulo insuficiente

É importante ressaltar: nem todo bebê com freio lingual curto vai ter dificuldade na amamentação — e nem toda dificuldade na amamentação é causada pelo freio. A avaliação por profissional qualificado é que vai fazer esse diagnóstico diferencial.

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Como o freio lingual curto pode afetar o desenvolvimento da fala

Além da amamentação, o freio lingual pode impactar o desenvolvimento da fala. A língua é o principal articulador da fala humana — ela deve realizar movimentos precisos para produzir sons como /t/, /d/, /n/, /l/, /s/, /z/, /r/ e outros.

Quando a mobilidade lingual está restrita, alguns desses sons podem ser afetados — especialmente aqueles que requerem elevação da língua ao palato (como /t/, /d/, /n/, /l/) ou movimentos mais complexos (como o /r/ e o /lh/).

Isso não significa que toda criança com freio lingual curto vai ter dificuldades de fala. Muitas se adaptam e desenvolvem fala inteligível. Mas em alguns casos, especialmente quando o freio é mais restritivo, pode haver impacto articulatório que se beneficia de tratamento.

A avaliação fonoaudiológica por volta dos 3-4 anos — quando a fala está mais estabelecida — pode identificar se há compensações ou substituições relacionadas ao freio.

Tratamento do freio lingual curto: quando é necessário e como funciona

O tratamento do freio lingual curto, quando indicado, é a frenulotomia — um procedimento cirúrgico simples que corta ou altera o freio, realizado por cirurgião-dentista ou médico otorrinolaringologista.

Em recém-nascidos com dificuldade de amamentação

Quando a avaliação identifica freio limitante com impacto claro na amamentação, a frenulotomia precoce é indicada — preferencialmente nas primeiras semanas de vida. O procedimento em bebês pequenos é rápido, com anestesia tópica, e permite retorno imediato à amamentação.

Em crianças maiores com impacto na fala

Para crianças maiores, a decisão de operar considera a gravidade da restrição, o impacto real na fala e a resposta à terapia fonoaudiológica prévia. Em muitos casos, a terapia fonoaudiológica pode melhorar a mobilidade funcional suficientemente — a cirurgia é reservada para casos onde a restrição anatômica é real e significativa.

Após a frenulotomia

Após a cirurgia, a terapia fonoaudiológica de motricidade orofacial é frequentemente recomendada — especialmente em crianças maiores — para trabalhar a reeducação dos padrões de movimento da língua e garantir que as compensações aprendidas sejam corrigidas.

O papel do fonoaudiólogo na avaliação e no acompanhamento do freio lingual

O fonoaudiólogo atua em duas frentes no contexto do freio lingual:

  1. Avaliação: aplica o protocolo padronizado (PAFL ou similares), avalia a mobilidade funcional da língua, identifica impacto na amamentação ou na fala, e indica ou não o encaminhamento para cirurgia.
  2. Terapia de motricidade orofacial: antes da cirurgia (para preparar a musculatura) e/ou após (para reeducar os movimentos e eliminar compensações).

Para recém-nascidos com dificuldade de amamentação, a avaliação deve ser presencial. Para crianças maiores com suspeita de impacto na fala, uma triagem inicial pode ser feita por telefonoaudiologia, com a avaliação presencial reservada para quando o profissional julgar necessário o exame físico direto.

Veja mais sobre a especialidade em nossa página de Motricidade Orofacial e também em Língua Presa — Freio Lingual.

Conclusão

A língua presa é uma condição real, relativamente comum, que pode ter impacto na amamentação e na fala — mas que tem tratamento eficaz e bem estabelecido. O teste da linguinha, obrigatório por lei nas maternidades, é o primeiro passo para identificá-la.

Se você tem dúvidas sobre o resultado do teste, se a amamentação está difícil, ou se seu filho maior apresenta dificuldades articulatórias, uma avaliação fonoaudiológica de motricidade orofacial é o caminho certo. Não existe motivo para esperar.

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Perguntas Frequentes

O teste da linguinha é obrigatório em todas as maternidades?

Sim. A Lei Federal 13.002/2014 determina que todos os recém-nascidos sejam avaliados quanto ao freio lingual antes da alta da maternidade. Se seu bebê não foi avaliado, ou se você não recebeu o resultado por escrito, você pode solicitar a avaliação a qualquer momento após a alta — com um fonoaudiólogo, cirurgião-dentista ou médico habilitado.

A frenulotomia dói? O bebê precisa de anestesia?

Em recém-nascidos, a frenulotomia é um procedimento rápido — dura poucos segundos — realizado com anestesia tópica ou sem anestesia, dependendo do protocolo do profissional. A dor é mínima e o bebê geralmente é colocado para mamar imediatamente após. Em crianças maiores, anestesia local é utilizada. A recuperação é rápida.

Se meu filho já tem 4 anos e ainda não fez a cirurgia, ainda vale a pena?

Depende do grau de restrição e do impacto na fala. Para crianças maiores, a avaliação fonoaudiológica vai determinar se ainda há limitação funcional que justifique o procedimento. Em muitos casos, mesmo sem cirurgia prévia, a terapia de motricidade orofacial consegue compensar a restrição. O fonoaudiólogo e o dentista ou médico vão avaliar juntos o melhor caminho.

Língua presa afeta o desenvolvimento dos dentes?

Pode haver algum impacto, especialmente quando o freio é muito anteriorizado e cria força sobre os incisivos inferiores. Por isso, a avaliação odontológica também é recomendada, especialmente quando há suspeita de freio lingual mais restritivo. O cirurgião-dentista especializado em bebês e crianças (odontopediatra) é o profissional mais indicado para essa avaliação.

A fonoaudiologia pode ser feita online para freio lingual?

Para recém-nascidos com dificuldade de amamentação, a avaliação precisa ser presencial — o exame físico direto da língua é essencial. Para crianças maiores com possível impacto na fala, uma triagem inicial pode ser feita online, com encaminhamento para avaliação presencial quando o profissional julgar necessário. A terapia de motricidade orofacial pós-cirúrgica pode ter componentes online.

Referências Bibliográficas

  1. Brasil. Lei 13.002, de 20 de junho de 2014. Obrigatoriedade do Protocolo de Avaliação do Frênulo da Língua em Bebês.
  2. Martinelli, R.L.C. et al. (2013). Validade do conteúdo do Protocolo de Avaliação do Frênulo Lingual para bebês. Revista CEFAC, 15(3).
  3. Hazelbaker, A.K. (1993). The Assessment Tool for Lingual Frenulum Function (ATLFF). Tese. Pacific Oaks College.
  4. Walsh, J. & Tunkel, D. (2017). Diagnosis and Treatment of Ankyloglossia in Newborns and Infants. JAMA Otolaryngology—Head & Neck Surgery.
  5. Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia. Nota Técnica sobre Freio Lingual. sbfa.org.br


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