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Neyre Tonhela

Fonoaudióloga • ✓ CRFa

6 min de leitura •

Mastigação Incorreta: Impactos na Saúde e Estética Facial

Introdução

Mastigar parece um ato tão automático que a maioria das pessoas nunca para para pensar se está fazendo “certo”. Mas a verdade é que a forma como você mastiga influencia muito mais do que imagina: desde a digestão e a saúde dos dentes até o formato do rosto e o funcionamento da ATM.

Mastigar de um lado só, engolir sem triturar, comer rápido demais, evitar alimentos duros — esses padrões são mais comuns do que parecem e podem ter consequências reais para a saúde. E quando surgem na infância, o impacto é ainda maior, porque a mastigação influencia o crescimento craniofacial.

O fonoaudiólogo especialista em motricidade orofacial é o profissional que avalia e trata alterações de mastigação — e os resultados vão muito além de “comer melhor”.

Como deveria ser a mastigação adequada?

A mastigação fisiológica tem características bem definidas: é bilateral alternada (mastiga-se dos dois lados, alternando a cada ciclo mastigatório), é realizada com lábios fechados, tem ritmo regular (nem muito rápida nem muito lenta), o alimento é triturado completamente antes de ser engolido, a língua participa ativamente — posicionando o alimento entre os dentes e depois organizando o bolo alimentar para a deglutição — e a respiração nasal é mantida durante todo o processo.

Quando algum desses elementos está alterado, falamos em mastigação inadequada ou disfuncional.

Tipos de alteração mastigatória

As alterações mais comuns incluem: mastigação unilateral (sempre do mesmo lado — sobrecarrega ATM e músculos de um lado e subdesenvole o outro), mastigação com lábios abertos (geralmente associada a respiração oral — o ar compete com o alimento), mastigação insuficiente (engole pedaços grandes, sem triturar — prejudica a digestão e aumenta risco de engasgo), mastigação muito lenta ou dolorosa (pode indicar DTM, problemas dentários ou fraqueza muscular), preferência por alimentos moles e recusa de texturas (especialmente em crianças — pode indicar hipotonia orofacial) e mastigação anterior (tritura com os dentes da frente em vez dos posteriores — ineficiente e prejudicial ao esmalte).

Consequências da mastigação incorreta

Na digestão

A mastigação é a primeira etapa da digestão. Quando o alimento não é adequadamente triturado e misturado à saliva, chega ao estômago em pedaços grandes — exigindo mais trabalho do sistema digestivo. Isso pode causar desconforto gástrico, sensação de estufamento, refluxo e má absorção de nutrientes.

Na ATM e musculatura

Mastigar sempre de um lado sobrecarrega a ATM e os músculos mastigatórios ipsilaterais (do mesmo lado). Com o tempo, isso pode levar a dor, estalidos, desgaste articular e até assimetria facial visível — com um lado da face mais desenvolvido que o outro.

Na estética facial

A mastigação é um dos maiores estímulos para o desenvolvimento e a manutenção da musculatura facial. Mastigação bilateral mantém o tônus simétrico. Mastigação unilateral gera assimetria. Alimentação predominantemente pastosa (pouca mastigação) resulta em musculatura hipotônica — contribuindo para flacidez facial.

No desenvolvimento infantil

Na infância, a mastigação tem papel fundamental no crescimento do maxilar e da mandíbula. Crianças que se alimentam predominantemente com alimentos pastosos ou líquidos deixam de estimular adequadamente o crescimento ósseo e muscular — o que pode resultar em arcadas dentárias estreitas, apinhamento dental e alterações na mordida.

Quando procurar um fonoaudiólogo?

Vale buscar avaliação quando: a pessoa mastiga sempre de um lado, mesmo sem dor ou problema dentário aparente. Quando come com a boca aberta habitualmente (além da primeira infância). Quando engole alimentos praticamente sem mastigar. Quando há dor ao mastigar. Quando a criança recusa texturas sólidas após os 12-18 meses. Quando há assimetria facial perceptível. Quando existe bruxismo ou estalido na ATM.

Como o fonoaudiólogo trata alterações de mastigação?

O tratamento começa com avaliação funcional: o fono observa e analisa o padrão mastigatório com diferentes texturas de alimento. Investiga a causa da alteração (dor, perda dentária, respiração oral, hábitos, hipotonia) e elabora um plano terapêutico personalizado.

O tratamento pode incluir: exercícios de fortalecimento da musculatura mastigatória, treino de mastigação bilateral com alimentos de diferentes consistências, orientações sobre tamanho dos pedaços e ritmo mastigatório, adequação da postura labial durante a alimentação, trabalho de introdução gradual de texturas (em crianças seletivas) e exercícios de coordenação e ritmo mastigatório.

Telefonoaudiologia e mastigação

A terapia de adequação mastigatória funciona bem no formato online, conforme a Resolução CFFa nº 785/2025. O paciente realiza as atividades com alimentos reais durante a sessão — e o fono observa pela câmera o padrão mastigatório, corrige e orienta em tempo real.

Para crianças, a participação dos pais é essencial e naturalmente facilitada pela teleconsulta: eles aprendem a observar e orientar a mastigação nas refeições do dia a dia, multiplicando o efeito terapêutico.

Perguntas frequentes (FAQ)

Mastigar de um lado só muda o rosto?

Sim, pode causar assimetria facial ao longo do tempo. O lado em que se mastiga mais tende a ter musculatura mais desenvolvida. Em crianças e adolescentes, esse efeito é mais pronunciado porque o rosto ainda está em crescimento.

Comer alimentos moles faz mal?

Não faz mal eventualmente, mas a dieta predominantemente pastosa priva a musculatura orofacial do estímulo de mastigação. Em crianças, isso pode comprometer o desenvolvimento das arcadas dentárias. Em adultos, contribui para perda de tônus muscular facial.

Quanto tempo dura o tratamento?

A adequação do padrão mastigatório costuma levar de 2 a 4 meses de terapia, com exercícios diários em casa. Casos associados a DTM ou alterações estruturais podem levar mais tempo.

Meu filho só come pastoso. É caso de fono?

Se a criança tem mais de 12-18 meses e recusa sistematicamente alimentos sólidos ou com textura, vale uma avaliação fonoaudiológica. Pode haver hipotonia orofacial, dificuldade de coordenação mastigatória ou questões sensoriais que o fono pode ajudar a resolver.

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Referências Bibliográficas

  1. Bianchini, E. M. G. Mastigação e ATM: Avaliação e Terapia. Pró-Fono, 2010.
  2. Marchesan, I. Q. Motricidade Oral: Visão Clínica do Trabalho Fonoaudiológico. Pancast, 1993.
  3. Conselho Federal de Fonoaudiologia. Resolução CFFa nº 785/2025 — Telefonoaudiologia.
  4. Felício, C. M. et al. Masticatory performance and chewing patterns in children. Journal of Oral Rehabilitation, 2008.
  5. Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia. Departamento de Motricidade Orofacial.

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