Introdução
Mastigar parece um ato tão automático que a maioria das pessoas nunca para para pensar se está fazendo “certo”. Mas a verdade é que a forma como você mastiga influencia muito mais do que imagina: desde a digestão e a saúde dos dentes até o formato do rosto e o funcionamento da ATM.
Mastigar de um lado só, engolir sem triturar, comer rápido demais, evitar alimentos duros — esses padrões são mais comuns do que parecem e podem ter consequências reais para a saúde. E quando surgem na infância, o impacto é ainda maior, porque a mastigação influencia o crescimento craniofacial.
O fonoaudiólogo especialista em motricidade orofacial é o profissional que avalia e trata alterações de mastigação — e os resultados vão muito além de “comer melhor”.
Como deveria ser a mastigação adequada?
A mastigação fisiológica tem características bem definidas: é bilateral alternada (mastiga-se dos dois lados, alternando a cada ciclo mastigatório), é realizada com lábios fechados, tem ritmo regular (nem muito rápida nem muito lenta), o alimento é triturado completamente antes de ser engolido, a língua participa ativamente — posicionando o alimento entre os dentes e depois organizando o bolo alimentar para a deglutição — e a respiração nasal é mantida durante todo o processo.
Quando algum desses elementos está alterado, falamos em mastigação inadequada ou disfuncional.
Tipos de alteração mastigatória
As alterações mais comuns incluem: mastigação unilateral (sempre do mesmo lado — sobrecarrega ATM e músculos de um lado e subdesenvole o outro), mastigação com lábios abertos (geralmente associada a respiração oral — o ar compete com o alimento), mastigação insuficiente (engole pedaços grandes, sem triturar — prejudica a digestão e aumenta risco de engasgo), mastigação muito lenta ou dolorosa (pode indicar DTM, problemas dentários ou fraqueza muscular), preferência por alimentos moles e recusa de texturas (especialmente em crianças — pode indicar hipotonia orofacial) e mastigação anterior (tritura com os dentes da frente em vez dos posteriores — ineficiente e prejudicial ao esmalte).
Consequências da mastigação incorreta
Na digestão
A mastigação é a primeira etapa da digestão. Quando o alimento não é adequadamente triturado e misturado à saliva, chega ao estômago em pedaços grandes — exigindo mais trabalho do sistema digestivo. Isso pode causar desconforto gástrico, sensação de estufamento, refluxo e má absorção de nutrientes.
Na ATM e musculatura
Mastigar sempre de um lado sobrecarrega a ATM e os músculos mastigatórios ipsilaterais (do mesmo lado). Com o tempo, isso pode levar a dor, estalidos, desgaste articular e até assimetria facial visível — com um lado da face mais desenvolvido que o outro.
Na estética facial
A mastigação é um dos maiores estímulos para o desenvolvimento e a manutenção da musculatura facial. Mastigação bilateral mantém o tônus simétrico. Mastigação unilateral gera assimetria. Alimentação predominantemente pastosa (pouca mastigação) resulta em musculatura hipotônica — contribuindo para flacidez facial.
No desenvolvimento infantil
Na infância, a mastigação tem papel fundamental no crescimento do maxilar e da mandíbula. Crianças que se alimentam predominantemente com alimentos pastosos ou líquidos deixam de estimular adequadamente o crescimento ósseo e muscular — o que pode resultar em arcadas dentárias estreitas, apinhamento dental e alterações na mordida.
Quando procurar um fonoaudiólogo?
Vale buscar avaliação quando: a pessoa mastiga sempre de um lado, mesmo sem dor ou problema dentário aparente. Quando come com a boca aberta habitualmente (além da primeira infância). Quando engole alimentos praticamente sem mastigar. Quando há dor ao mastigar. Quando a criança recusa texturas sólidas após os 12-18 meses. Quando há assimetria facial perceptível. Quando existe bruxismo ou estalido na ATM.
Como o fonoaudiólogo trata alterações de mastigação?
O tratamento começa com avaliação funcional: o fono observa e analisa o padrão mastigatório com diferentes texturas de alimento. Investiga a causa da alteração (dor, perda dentária, respiração oral, hábitos, hipotonia) e elabora um plano terapêutico personalizado.
O tratamento pode incluir: exercícios de fortalecimento da musculatura mastigatória, treino de mastigação bilateral com alimentos de diferentes consistências, orientações sobre tamanho dos pedaços e ritmo mastigatório, adequação da postura labial durante a alimentação, trabalho de introdução gradual de texturas (em crianças seletivas) e exercícios de coordenação e ritmo mastigatório.
Telefonoaudiologia e mastigação
A terapia de adequação mastigatória funciona bem no formato online, conforme a Resolução CFFa nº 785/2025. O paciente realiza as atividades com alimentos reais durante a sessão — e o fono observa pela câmera o padrão mastigatório, corrige e orienta em tempo real.
Para crianças, a participação dos pais é essencial e naturalmente facilitada pela teleconsulta: eles aprendem a observar e orientar a mastigação nas refeições do dia a dia, multiplicando o efeito terapêutico.
Perguntas frequentes (FAQ)
Mastigar de um lado só muda o rosto?
Sim, pode causar assimetria facial ao longo do tempo. O lado em que se mastiga mais tende a ter musculatura mais desenvolvida. Em crianças e adolescentes, esse efeito é mais pronunciado porque o rosto ainda está em crescimento.
Comer alimentos moles faz mal?
Não faz mal eventualmente, mas a dieta predominantemente pastosa priva a musculatura orofacial do estímulo de mastigação. Em crianças, isso pode comprometer o desenvolvimento das arcadas dentárias. Em adultos, contribui para perda de tônus muscular facial.
Quanto tempo dura o tratamento?
A adequação do padrão mastigatório costuma levar de 2 a 4 meses de terapia, com exercícios diários em casa. Casos associados a DTM ou alterações estruturais podem levar mais tempo.
Meu filho só come pastoso. É caso de fono?
Se a criança tem mais de 12-18 meses e recusa sistematicamente alimentos sólidos ou com textura, vale uma avaliação fonoaudiológica. Pode haver hipotonia orofacial, dificuldade de coordenação mastigatória ou questões sensoriais que o fono pode ajudar a resolver.
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Referências Bibliográficas
- Bianchini, E. M. G. Mastigação e ATM: Avaliação e Terapia. Pró-Fono, 2010.
- Marchesan, I. Q. Motricidade Oral: Visão Clínica do Trabalho Fonoaudiológico. Pancast, 1993.
- Conselho Federal de Fonoaudiologia. Resolução CFFa nº 785/2025 — Telefonoaudiologia.
- Felício, C. M. et al. Masticatory performance and chewing patterns in children. Journal of Oral Rehabilitation, 2008.
- Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia. Departamento de Motricidade Orofacial.