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Neyre Tonhela

Fonoaudióloga • ✓ CRFa

10 min de leitura

Perda Auditiva: Tipos, Causas e o Papel do Fonoaudiólogo

Audição e Equilíbrio

Perda Auditiva: Tipos, Causas e o Papel do Fonoaudiólogo

A perda auditiva afeta mais de 10 milhões de brasileiros e tem impacto direto na comunicação, na qualidade de vida e no desenvolvimento. Entenda os tipos, as causas e o que o fonoaudiólogo faz.

A audição é a base da comunicação humana. Quando ela é comprometida — em qualquer grau, em qualquer faixa etária — o impacto vai além de “não ouvir bem”: afeta a linguagem, o desenvolvimento, as relações sociais, a qualidade de vida e, em crianças, o aprendizado escolar.

No Brasil, estima-se que mais de 10 milhões de pessoas têm algum grau de perda auditiva — e grande parte desse número não sabe, não tem diagnóstico ou não tem acesso a tratamento adequado. A perda auditiva é a deficiência sensorial mais prevalente no país.

Este artigo explica o que é perda auditiva, como se classifica, quais são suas causas mais comuns e qual é o papel específico do fonoaudiólogo no diagnóstico, reabilitação e acompanhamento das pessoas com déficit auditivo.

Como funciona a audição

O sistema auditivo humano é um dos mais sofisticados da biologia. Funciona em etapas:

  1. O ouvido externo (pavilhão auricular e canal auditivo) capta e direciona as ondas sonoras para a membrana timpânica.
  2. O ouvido médio (tímpano e ossículos: martelo, bigorna e estribo) amplifica mecanicamente o som e o transmite para o ouvido interno.
  3. O ouvido interno (cóclea) converte as vibrações mecânicas em impulsos elétricos por meio das células ciliadas.
  4. O nervo auditivo conduz esses impulsos para o tronco cerebral e córtex auditivo, onde o som é processado e interpretado.

Uma alteração em qualquer ponto desse trajeto pode causar perda auditiva — e a localização do problema determina o tipo de perda.

Tipos de perda auditiva

Perda auditiva condutiva

Causada por alteração no ouvido externo ou médio que impede a condução adequada do som até o ouvido interno. Exemplos: rolha de cera no canal auditivo, perfuração de tímpano, otite média com efusão, otosclerose. Em geral, tratável — cirúrgica ou clinicamente. A audição com aparelho é muito boa, porque o ouvido interno está íntegro.

Perda auditiva neurossensorial (SNHL)

Causada por dano às células ciliadas da cóclea ou ao nervo auditivo. É a forma mais comum de perda auditiva em adultos. Em geral, irreversível — porque as células ciliadas não se regeneram. Reabilitação com aparelho auditivo ou implante coclear conforme o grau.

Perda auditiva mista

Combinação de componentes condutivo e neurossensorial na mesma orelha. Exemplo: pessoa com presbiacusia (neurossensorial) que também desenvolve otite média.

Perda auditiva central

Causada por alteração no processamento do sinal auditivo no sistema nervoso central — não no ouvido em si. A audiometria periférica pode ser normal, mas a pessoa tem dificuldade de entender o que ouve, especialmente em ambiente ruidoso. Relaciona-se ao Transtorno do Processamento Auditivo Central (TPAC). Veja mais em Processamento Auditivo Central.

Graus de perda auditiva

A perda auditiva é classificada por grau conforme o limiar auditivo em decibéis (dB), medido pela audiometria tonal:

  • Audição normal: até 25 dB HL
  • Perda leve: 26 a 40 dB — dificuldade em ambientes ruidosos, em sons fracos ou em conversas a distância
  • Perda moderada: 41 a 55 dB — dificuldade significativa em conversação normal; voz precisa ser elevada
  • Perda moderada a severa: 56 a 70 dB — necessidade de fala alta; televisão em volume muito alto
  • Perda severa: 71 a 90 dB — apenas sons muito altos são percebidos sem amplificação
  • Perda profunda: acima de 90 dB — audição muito limitada mesmo com amplificação; pode necessitar de implante coclear

Causas mais comuns de perda auditiva

Em bebês e crianças

  • Causas genéticas: respondem por 50 a 60% das perdas congênitas. Podem ser sindrômicas (associadas a outras características) ou não-sindrômicas.
  • Infecções congênitas: citomegalovírus (CMV), rubéola, toxoplasmose, sífilis (TORSCH) — causas importantes de perda auditiva congênita ou adquirida no início da vida.
  • Prematuridade e baixo peso: aumentam significativamente o risco de perda auditiva.
  • Otites de repetição: otite média secretora crônica é a causa mais frequente de perda condutiva em crianças em idade pré-escolar.

Em adultos e idosos

  • Presbiacusia: perda neurossensorial progressiva relacionada ao envelhecimento — a causa mais comum de perda auditiva em idosos. Veja mais em Presbiacusia.
  • Exposição a ruído: PAIR (Perda Auditiva Induzida por Ruído) — ocupacional ou de lazer (shows, fones de ouvido em volume alto).
  • Ototoxicidade: alguns medicamentos (aminoglicosídeos, cisplatina, furosemida em altas doses) danificam as células ciliadas.
  • Doenças sistêmicas: diabetes, hipertensão, doenças autoimunes têm associação com perda auditiva.
  • Trauma acústico agudo: explosão, tiro, som muito alto em exposição única.

Sinais de perda auditiva em diferentes faixas etárias

Em bebês (0 a 12 meses)

  • Não reage a sons altos com susto ou choro
  • Não acalma com a voz dos pais
  • Balbucio que começa a regredir após os 6 meses
  • Não localiza a fonte de sons aos 6 meses

Em crianças (1 a 5 anos)

  • Atraso no desenvolvimento da fala sem outra causa aparente
  • Pede frequentemente para repetir
  • Aumenta o volume da televisão mais do que os irmãos
  • Não responde quando chamada de outro cômodo
  • Fala muito alto

Em adultos e idosos

  • Dificuldade de entender em ambientes ruidosos
  • Pede frequentemente para repetir
  • Aumenta muito o volume da TV
  • Dificuldade no telefone
  • Tinnitus (zumbido) associado
  • Sensação de que os outros “falam muito baixo” ou “engolem as palavras”

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Diagnóstico audiológico: os exames principais

O diagnóstico de perda auditiva é realizado por bateria de exames audiológicos, realizados pelo fonoaudiólogo especialista em audiologia:

  • Audiometria tonal liminar: determina o limiar auditivo em diferentes frequências, bilateralmente. É o exame principal para classificar tipo e grau de perda.
  • Logoaudiometria (audiometria vocal): avalia a compreensão de fala — quantas palavras a pessoa consegue identificar em diferentes intensidades.
  • Imitanciometria (timpanometria): avalia a mobilidade da membrana timpânica e a pressão do ouvido médio. Fundamental para diagnosticar otite média.
  • Emissões Otoacústicas (EOA): avalia a função das células ciliadas externas. Exame de triagem — o teste da orelhinha. Veja mais em Teste da Orelhinha.
  • BERA (Potencial Evocado Auditivo de Tronco Encefálico): avalia a via auditiva do nervo até o tronco encefálico. Indicado em bebês e pessoas que não podem colaborar com a audiometria convencional.

O papel do fonoaudiólogo na perda auditiva

O fonoaudiólogo especialista em audiologia atua em todo o ciclo do cuidado auditivo:

Avaliação e diagnóstico

Realiza a bateria audiológica completa, interpreta os resultados, classifica o tipo e grau de perda e encaminha para o médico otorrinolaringologista quando indicado.

Seleção e adaptação de aparelhos auditivos

Para perdas que se beneficiam de amplificação, o fonoaudiólogo realiza a seleção do aparelho mais adequado, a adaptação (ajuste de ganho e compressão), o acompanhamento da adaptação e a orientação sobre uso e manutenção.

Reabilitação auditiva

Não basta colocar o aparelho — muitos adultos precisam aprender a ouvir com amplificação depois de anos com perda. A reabilitação auditiva treina estratégias de comunicação, leitura labial, e adaptação às novas condições acústicas.

Implante coclear — antes e depois

O fonoaudiólogo participa da equipe de implante coclear: na avaliação pré-operatória, na ativação e programação do processador, e na reabilitação auditiva e de linguagem pós-cirúrgica.

Em crianças com perda auditiva

O acompanhamento fonoaudiológico é especialmente crítico: a perda auditiva não identificada ou não tratada na infância compromete o desenvolvimento da linguagem e da fala. Com diagnóstico e intervenção precoces, crianças com perda auditiva podem desenvolver linguagem oral em nível próximo ao de ouvintes.

Conclusão

A perda auditiva é uma condição frequente, com grande impacto na qualidade de vida — e amplamente tratável. O diagnóstico precoce, a reabilitação adequada e o acompanhamento fonoaudiológico fazem diferença real no desfecho de pessoas em todas as faixas etárias.

Se você ou alguém próximo apresenta sinais de perda auditiva, não adie a avaliação. Quanto mais cedo o diagnóstico, mais amplas são as possibilidades de reabilitação.

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Veja também: Especialidade em Audiologia

Perguntas Frequentes

Perda auditiva leve precisa de aparelho auditivo?

Depende do impacto funcional. Uma perda leve em adulto pode ser compensada sem aparelho em muitas situações do cotidiano — mas em contextos de alta demanda auditiva (reuniões, ambientes ruidosos, telefone), pode causar impacto significativo. O fonoaudiólogo avalia caso a caso. Para crianças, mesmo perdas leves são tratadas com mais urgência, porque qualquer grau de perda impacta o desenvolvimento de linguagem.

Perda auditiva tem cura?

Depende do tipo. Perdas condutivas causadas por rolha de cera, otite ou perfuração de tímpano frequentemente têm resolução com tratamento clínico ou cirúrgico. Perdas neurossensoriais — a maioria das perdas em adultos — são irreversíveis, pois o dano às células ciliadas é permanente. A reabilitação com aparelho auditivo ou implante coclear não “cura” a perda, mas restaura a funcionalidade auditiva de forma muito eficaz.

Fone de ouvido em volume alto causa perda auditiva permanente?

Sim. A exposição frequente a sons acima de 85 dB por períodos prolongados causa dano cumulativo às células ciliadas — que é irreversível. Adolescentes e jovens adultos são o grupo mais em risco pelo uso intenso de fones de ouvido. A regra de ouro: volume máximo de 60% do dispositivo por no máximo 60 minutos contínuos — a chamada “regra 60/60”.

O que é o teste da orelhinha e quando deve ser feito?

O teste da orelhinha (Triagem Auditiva Neonatal) é um exame de emissões otoacústicas realizado nos primeiros dias de vida — idealmente nas primeiras 48 a 72 horas. É obrigatório em maternidades no Brasil (Lei 12.303/2010). Detecta a maioria das perdas auditivas congênitas precocemente, permitindo intervenção antes dos 6 meses — janela crucial para o desenvolvimento de linguagem.

Referências Bibliográficas

  1. IBGE. Censo Demográfico 2010 — Características gerais da população, religião e pessoas com deficiência. IBGE, 2012.
  2. Northern, J.L. & Downs, M.P. (2014). Hearing in Children. 6ª ed. Plural Publishing.
  3. Katz, J. et al. (2015). Handbook of Clinical Audiology. 7ª ed. Lippincott Williams & Wilkins.
  4. Brasil. Lei 12.303, de 2 de agosto de 2010. Triagem Auditiva Neonatal Universal.
  5. Conselho Federal de Fonoaudiologia. Resoluções sobre Audiologia. cffa.org.br


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