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Neyre Tonhela

Fonoaudióloga • ✓ CRFa

9 min de leitura

Vertigem e Tontura: Quando Procurar um Fonoaudiólogo

Audição e Equilíbrio

Vertigem e Tontura: Quando Procurar um Fonoaudiólogo

Vertigem, tontura e instabilidade ao andar têm causas variadas — e o fonoaudiólogo especialista em otoneurologia é parte fundamental da equipe de diagnóstico e tratamento.

Tontura é o terceiro sintoma mais frequente em consultas médicas — atrás apenas de dor de cabeça e dor nas costas. E é também um dos mais mal compreendidos. Não porque seja difícil de tratar, mas porque “tontura” é um termo guarda-chuva que cobre sensações muito diferentes: a sensação de que tudo está girando, a instabilidade ao caminhar, a sensação de estar flutuando, o desmaio iminente.

O sistema de equilíbrio humano é complexo — envolve o ouvido interno, os olhos, a propriocepção muscular e o processamento central de tudo isso. Quando algum desses componentes falha, o resultado é tontura ou vertigem — e identificar qual componente está envolvido é fundamental para o tratamento correto.

A otoneurologia — a área de atuação do fonoaudiólogo que cuida das disfunções do sistema vestibular e auditivo — tem ferramentas específicas para esse diagnóstico.

Vertigem vs. tontura: a diferença importa para o diagnóstico

Muitas pessoas usam “vertigem” e “tontura” como sinônimos — mas para o diagnóstico clínico, a distinção é importante:

  • Vertigem: sensação ilusória de movimento — a pessoa sente que o ambiente está girando ao seu redor, ou que ela mesma está girando. Indica, em geral, problema no sistema vestibular periférico (ouvido interno) ou central (cerebelo, tronco encefálico).
  • Tontura: sensação de instabilidade, desequilíbrio, flutuação ou pré-síncope (sensação de desmaio iminente). Causas mais variadas — cardiovasculares, metabólicas, medicamentosas, neurológicas.
  • Desequilíbrio: dificuldade de manter a postura e de caminhar de forma estável. Pode ter base vestibular, cerebelar, proprioceptiva ou combinada.

Na consulta, o profissional pergunta especificamente: “você sente que o ambiente gira, ou é você que gira?” Essa resposta já orienta muito o raciocínio diagnóstico.

Como funciona o sistema de equilíbrio

O equilíbrio humano depende da integração de três sistemas sensoriais:

  • Sistema vestibular (ouvido interno): os canais semicirculares detectam rotação da cabeça; o sáculo e utrículo detectam aceleração linear e gravidade. É o sensor primário de movimento.
  • Sistema visual: fornece informação sobre posição no espaço. Quando o visual e o vestibular conflitam, ocorre o enjôo de movimento (enjoo de carro, de navio).
  • Propriocepção: receptores em músculos, articulações e pele sinalizam a posição do corpo no espaço.

O cerebelo e o tronco encefálico integram esses três sinais e fazem ajustes contínuos da postura e do movimento ocular (reflexo vestíbulo-ocular). Quando alguma parte desse sistema falha, o resultado é desequilíbrio ou vertigem.

As causas mais comuns de vertigem e tontura

  • VPPB — Vertigem Posicional Paroxística Benigna: a causa mais comum — 35% de todos os casos de vertigem. Cristais de carbonato de cálcio do ouvido interno se deslocam para os canais semicirculares, causando crises de vertigem ao mudar de posição. Tem tratamento altamente eficaz com manobras de reposicionamento.
  • Neurite vestibular: inflamação do nervo vestibular, geralmente pós-viral. Causa vertigem intensa, náusea e vômito de início súbito, com duração de dias a semanas. Tratamento medicamentoso e reabilitação vestibular.
  • Doença de Ménière: síndrome com trilogia de vertigem episódica + zumbido + perda auditiva flutuante. Causa: hidropsia endolinfática. Tratamento medicamentoso e dietético.
  • Migrânea vestibular: vertigem associada à enxaqueca — uma das causas mais subestimadas. Muitas pessoas têm crises de vertigem sem cefaleia, mas com outros sinais migrâneos.
  • Causas centrais: AVC, tumor cerebelar, esclerose múltipla — menos frequentes mas importantes de excluir, especialmente quando há outros sinais neurológicos.

VPPB: a causa mais frequente de vertigem — e a mais tratável

A Vertigem Posicional Paroxística Benigna é a causa mais comum de vertigem em todas as faixas etárias — e também a que tem tratamento mais eficaz e rápido.

A VPPB causa crises de vertigem intensa (geralmente com náusea) desencadeadas por mudanças de posição da cabeça: deitar, levantar, virar para um lado na cama, olhar para cima. As crises duram de 30 segundos a 1 minuto e somem espontaneamente — mas voltam na próxima mudança de posição.

Diagnóstico

A manobra de Dix-Hallpike e o rool test (teste de rolar na maca) são exames diagnósticos que provocam a vertigem de forma controlada, permitindo ao fonoaudiólogo identificar qual canal semicircular está envolvido.

Tratamento

As manobras de reposicionamento de partículas (Manobra de Epley para o canal posterior, Manobra de Barbecue para o canal horizontal) reposicionam os cristais para o lugar correto. Em mais de 80% dos casos, uma a duas sessões são suficientes para resolver o quadro. É um dos tratamentos mais eficazes em toda a medicina — e o fonoaudiólogo especialista em otoneurologia está treinado para realizá-las.

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Doença de Ménière

A doença de Ménière é uma síndrome do ouvido interno caracterizada pela tríade: crises de vertigem rotatória intensa (minutos a horas), zumbido de baixa frequência e perda auditiva flutuante (que piora durante as crises). Pode haver sensação de plenitude auricular.

A causa é o acúmulo de endolinfa (hidropsia endolinfática) que distende as membranas do ouvido interno. Não tem cura definitiva, mas o manejo adequado reduz muito a frequência e intensidade das crises.

O tratamento inclui modificações dietéticas (redução de sódio e cafeína), medicamentos (diuréticos, betaistina), e nos casos mais graves, procedimentos minimamente invasivos ou cirúrgicos. A reabilitação vestibular entre as crises ajuda na recuperação do equilíbrio.

Avaliação otoneurológica: o que inclui

O fonoaudiólogo especialista em otoneurologia realiza bateria específica de avaliação vestibular:

  • Vectoeletronistagmografia (VENG) ou Videonistagmografia (VNG): registra os movimentos oculares (nistagmo) em diferentes condições — com óculos especiais ou eletrodos. Avalia o reflexo vestíbulo-ocular e identifica lesões periféricas ou centrais.
  • Potencial Evocado Miogênico Vestibular (VEMP): avalia a função dos otólitos (sáculo e utrículo).
  • Testes posicionais: Dix-Hallpike, Roll test — para diagnóstico de VPPB.
  • Posturografia computadorizada: avalia a integração sensorial e o controle postural.
  • Avaliação audiológica: audiometria e imitanciometria — fundamentais para completar o quadro clínico.

Reabilitação vestibular

Para disfunções vestibulares que não têm resolução com manobras ou medicação, a reabilitação vestibular é a abordagem de escolha. É um programa de exercícios supervisionados que promove a compensação central — o cérebro aprende a usar melhor os sinais dos sistemas sensoriais remanescentes para manter o equilíbrio.

Inclui:

  • Exercícios de estabilização do olhar
  • Habituação vestibular — exposição progressiva a movimentos provocadores
  • Treinamento de equilíbrio estático e dinâmico
  • Treino de marcha e atividades funcionais

A reabilitação vestibular tem evidência robusta para reduzir tontura, melhorar equilíbrio e aumentar segurança nas atividades diárias — especialmente em idosos com alto risco de quedas.

Conclusão

Vertigem e tontura não são destino. A maioria das causas tem tratamento eficaz — e o diagnóstico correto é o que determina o tratamento adequado. O fonoaudiólogo especialista em otoneurologia tem as ferramentas diagnósticas e terapêuticas para trabalhar junto com o médico otorrinolaringologista no cuidado integral do equilíbrio.

Se você tem crises de vertigem, instabilidade persistente ou tontura frequente, a avaliação otoneurológica é o próximo passo.

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Perguntas Frequentes

VPPB pode voltar depois de tratado com manobras?

Sim. A VPPB tem taxa de recorrência de cerca de 15 a 30% ao longo do primeiro ano. Isso não significa que o tratamento falhou — significa que os cristais se deslocaram novamente. Uma nova sessão de manobras costuma ser igualmente eficaz. Algumas pessoas têm recorrências frequentes e podem ser ensinadas a realizar a manobra por conta própria em casa.

Tontura na menopausa é normal?

Tonturas durante a menopausa são frequentes — as flutuações hormonais afetam o sistema vestibular e a pressão sanguínea. A maioria dos episódios é benigna. Mas tontura persistente, frequente ou acompanhada de outros sintomas (zumbido, perda auditiva, cefaleia intensa) sempre merece investigação — não deve ser atribuída apenas à menopausa sem avaliação.

Exercícios físicos podem piorar a tontura?

Alguns exercícios podem desencadear tontura — especialmente os que envolvem mudanças rápidas de posição da cabeça ou do corpo. Em pessoas com disfunção vestibular em tratamento, o fonoaudiólogo orienta quais atividades físicas são adequadas em cada fase. Em muitos casos, exercício físico regular é parte do tratamento — desde que adaptado.

Devo parar de dirigir se tenho episódios de vertigem?

Uma crise de vertigem intensa ao volante é perigosa. A decisão sobre dirigir deve ser discutida com o médico responsável, levando em conta a causa, a frequência e a previsibilidade das crises. Em casos de VPPB ativa com crises frequentes, a prudência recomenda evitar dirigir até a resolução do quadro. Para condições crônicas com crises bem controladas, a orientação individual é mais adequada.

Referências Bibliográficas

  1. Bhattacharyya, N. et al. (2017). Clinical Practice Guideline: Benign Paroxysmal Positional Vertigo (Update). Otolaryngology–Head and Neck Surgery, 156(3S), S1–S47.
  2. Neuhauser, H.K. (2016). The epidemiology of dizziness and vertigo. Handbook of Clinical Neurology, 137, 67–82.
  3. Hall, C.D. et al. (2016). Vestibular rehabilitation for peripheral vestibular hypofunction. Journal of Neurologic Physical Therapy, 40(2), 124–155.
  4. Pereira, C.B. & Scaff, M. (2001). Vertigem e Desequilíbrio. Atheneu.
  5. Conselho Federal de Fonoaudiologia. Resoluções sobre Otoneurologia. cffa.org.br


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