Fissura Labiopalatina: Reabilitação Fonoaudiológica Completa
A fissura labiopalatina é a malformação congênita craniofacial mais comum no mundo — afeta aproximadamente 1 em cada 650 nascidos vivos no Brasil. Embora a cirurgia seja o tratamento central, ela é apenas o começo de uma jornada longa e multidisciplinar — e o fonoaudiólogo está presente em todas as etapas.
Desde a amamentação do recém-nascido até a fala do adolescente e do adulto, a fonoaudiologia é essencial para que a criança com fissura labiopalatina desenvolva comunicação, alimentação e qualidade de vida plenas.
O que é fissura labiopalatina
A fissura labiopalatina é uma abertura (fenda) que pode ocorrer no lábio, no palato (céu da boca) ou em ambos, resultante de uma falha no fechamento dessas estruturas durante o desenvolvimento fetal. Pode ser unilateral (de um lado) ou bilateral, completa ou incompleta.
- Fissura labial: afeta apenas o lábio
- Fissura palatina: afeta o palato — pode ser do palato duro, mole ou ambos
- Fissura labiopalatina: afeta lábio e palato simultaneamente — a apresentação mais complexa
A causa é multifatorial — genética, ambiental (uso de anticonvulsivantes, ácido fólico insuficiente, álcool na gravidez) e a combinação de ambos.
Amamentação e alimentação no recém-nascido com fissura
A amamentação do recém-nascido com fissura palatina é frequentemente impossível no padrão convencional, porque a fenda compromete a pressão intraoral necessária para a sucção eficaz. O fonoaudiólogo é chamado ainda na maternidade para:
- Orientar a família sobre técnicas e posicionamentos adaptados
- Indicar mamadeiras especiais com bicos de fluxo controlado desenvolvidos para fissura (ex: bico NFDR, Haberman Feeder)
- Apoiar a manutenção do aleitamento materno com ordenha e oferta por mamadeira adaptada
- Monitorar o ganho de peso e a eficiência alimentar
Fonoaudiologia antes e após a cirurgia
A cirurgia primária costuma ocorrer entre 3 e 12 meses de vida (queiloplastia — lábio — e palatoplastia — palato). O fonoaudiólogo participa em todas as fases:
Pré-operatório
- Estimulação de sucção e deglutição
- Orientações aos pais sobre desenvolvimento da comunicação
- Avaliação das funções orofaciais como baseline pré-cirúrgico
Pós-operatório imediato
- Reintrodução da alimentação oral após a cirurgia
- Cuidados com cicatriz labial (drenagem, massagem)
Acompanhamento de longo prazo
- Monitoramento do desenvolvimento da fala e da linguagem
- Tratamento de alterações de ressonância (hipernasalidade)
- Reabilitação miofuncional pré e pós-cirurgia de faringoplastia quando necessária
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Desenvolvimento de fala e ressonância na fissura labiopalatina
A fissura palatina — especialmente quando há comprometimento do palato mole — pode resultar em:
Hipernasalidade
O palato mole (véu palatino) é responsável pelo fechamento velofaríngeo — a separação entre a cavidade nasal e oral durante a fala. Quando esse fechamento é insuficiente, o ar escapa pelo nariz e a voz soa excessivamente nasal. Isso é a disfunção velofaríngea (DVF), que pode exigir nova cirurgia (faringoplastia) e/ou tratamento fonoaudiológico intensivo.
Compensações articulatórias
Para compensar o escape de ar nasal, crianças com DVF frequentemente desenvolvem articulações compensatórias — padrões incorretos de produção de sons como golpe de glote, fricativa faríngea — que persistem mesmo após cirurgia e exigem terapia fonoaudiológica específica.
Atraso de linguagem
Crianças com fissura têm maior risco de atraso de linguagem por infecções de ouvido recorrentes, perda auditiva condutiva e menor estimulação vocal no primeiro ano. O acompanhamento fonoaudiológico precoce reduz significativamente esse risco.
A equipe multidisciplinar na reabilitação da fissura
O tratamento ideal é realizado em centros de referência com equipe especializada, que inclui: cirurgião plástico ou bucomaxilofacial, fonoaudiólogo, ortodontista, psicólogo, assistente social, geneticista, otorrinolaringologista e odontopediatra.
No Brasil, o SUS oferece tratamento gratuito para fissura labiopalatina nos CADEFI (Centros de Atendimento e Diagnóstico de Fissuras e Deformidades). Fonoaudiólogos particulares e online também atendem casos de reabilitação — especialmente o componente de terapia de fala e orientação familiar — conforme a Resolução CFFa 785/2025.
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Perguntas Frequentes
A criança com fissura labiopalatina vai falar normalmente?
Sim, na grande maioria dos casos, com tratamento cirúrgico e fonoaudiológico adequado. Crianças com fissura palatina isolada sem disfunção velofaríngea residual têm prognóstico de fala muito bom. Mesmo nos casos com hipernasalidade, a cirurgia complementar e a terapia fonoaudiológica produzem melhoras significativas.
Quando deve começar o acompanhamento fonoaudiológico?
Idealmente no período neonatal — ainda na maternidade, para suporte à alimentação. O acompanhamento deve ser contínuo durante toda a infância e adolescência, com intensidade variando conforme as necessidades de cada fase.
Posso fazer fonoaudiologia online para fissura labiopalatina?
O componente de terapia de fala, orientação familiar e monitoramento do desenvolvimento de linguagem pode ser realizado por telefonoaudiologia. Avaliações que exigem inspeção intraoral direta requerem consulta presencial, mas o acompanhamento terapêutico regular funciona bem online.
Referências Bibliográficas
- Trindade, I.E.K. & Silva Filho, O.G. (orgs.) (2007). Fissuras Labiopalatinas: Uma Abordagem Interdisciplinar. Santos Editora.
- Peterson-Falzone, S.J. et al. (2010). The Clinician’s Guide to Treating Cleft Palate Speech. Mosby.
- Conselho Federal de Fonoaudiologia. Resolução CFFa 785/2025. cffa.org.br