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Neyre Tonhela

Fonoaudióloga • ✓ CRFa

7 min de leitura

Respiração Oral: Consequências, Sinais e Tratamento

Introdução

Seu filho dorme de boca aberta? Ronca à noite? Parece sempre cansado, mesmo dormindo muitas horas? Esses sinais podem parecer isolados, mas frequentemente apontam para um mesmo problema: a respiração oral.

Respirar pela boca não é apenas um “mau hábito”. É uma alteração funcional que, quando mantida ao longo do tempo, pode impactar profundamente o desenvolvimento facial, a qualidade do sono, o rendimento escolar e até o comportamento da criança. Em adultos, a respiração oral está associada a ronco, apneia, fadiga crônica e problemas ortodônticos.

A boa notícia é que a respiração oral tem tratamento — e o fonoaudiólogo especialista em motricidade orofacial é peça central nesse processo.

O que é respiração oral?

Respiração oral é quando a pessoa utiliza a boca como via principal de respiração, em vez do nariz. A respiração nasal é a forma fisiológica: o nariz filtra, aquece e umidifica o ar, preparando-o para os pulmões. Quando esse caminho é interrompido — por obstrução nasal, hábito ou alteração muscular — o corpo recorre à boca como alternativa.

O problema é que respirar pela boca não oferece os mesmos benefícios. O ar chega aos pulmões mais frio, seco e sem filtragem adequada. Além disso, manter a boca aberta altera toda a postura da língua, dos lábios e da mandíbula — e com o tempo, essas mudanças se tornam estruturais.

É importante distinguir três situações: o respirador oral por obstrução (adenoide aumentada, desvio de septo, rinite alérgica — há um impedimento físico), o respirador oral por hábito (a obstrução foi tratada, mas o padrão respiratório oral permaneceu), e o respirador oral funcional (sem obstrução, mas com musculatura orofacial hipotônica que não sustenta o padrão nasal).

Consequências da respiração oral

No desenvolvimento facial

A respiração oral crônica durante a infância pode alterar o crescimento do rosto. Com a boca constantemente aberta, a língua desce de sua posição natural (colada ao palato) e deixa de exercer a pressão que modela o maxilar. O resultado, ao longo dos anos, pode incluir palato ogival (estreito e alto), face alongada (“face adenoideana”), mandíbula recuada, mordida aberta anterior e arcadas dentárias estreitas com apinhamento.

Essas alterações não são apenas estéticas. Um palato estreito reduz o espaço nasal por cima, perpetuando a obstrução. É um ciclo: a respiração oral causa alteração estrutural, que piora a respiração oral.

No sono

Crianças que respiram pela boca tendem a dormir com a boca aberta, roncar, ter sono agitado e fazer pausas respiratórias (apneias). O sono fragmentado impacta diretamente a produção do hormônio do crescimento (que é liberado durante o sono profundo), a consolidação da memória e a regulação emocional.

Não é raro que crianças respiradoras orais sejam erroneamente diagnosticadas com TDAH — porque a privação de sono causa sintomas como desatenção, hiperatividade e irritabilidade que se sobrepõem aos do transtorno.

Na alimentação

Quem respira pela boca precisa da boca para respirar — e isso compete com a mastigação. O respirador oral tende a mastigar de boca aberta (porque precisa respirar enquanto come), engolir rápido sem triturar adequadamente, preferir alimentos moles e pastosos (que exigem menos mastigação) e ter dificuldade com alimentos que requerem mastigação prolongada.

Na fala e na voz

A postura de boca aberta afeta o tônus dos lábios e da língua, podendo causar distorções na fala — como o ceceio anterior (língua entre os dentes ao falar o “s”) — e voz com ressonância nasal alterada (fala “anasalada” ou, ao contrário, completamente desnasalada).

Na postura corporal

O respirador oral frequentemente apresenta alterações posturais compensatórias: cabeça projetada para frente, ombros caídos, cifose aumentada. Isso acontece porque a posição da cabeça se ajusta para facilitar a passagem de ar pela boca.

Sinais de alerta: como identificar a respiração oral

Alguns sinais são fáceis de observar no dia a dia: a criança mantém a boca aberta em repouso (assistindo TV, brincando, dormindo), tem lábios ressecados e rachados, apresenta olheiras frequentes, ronca ao dormir, baba no travesseiro, tem halitose (mau hálito) frequente, fica irritada ou sonolenta durante o dia, apresenta infecções respiratórias recorrentes (otite, sinusite, amigdalite), come devagar ou é seletiva com texturas alimentares.

Se você identificou três ou mais desses sinais, vale a pena investigar com um otorrinolaringologista e um fonoaudiólogo.

Tratamento: o papel do fonoaudiólogo

O tratamento da respiração oral é interdisciplinar. O otorrinolaringologista avalia e trata causas obstrutivas (adenoide, cornetos, desvio de septo, rinite). O ortodontista corrige alterações dentárias e esqueléticas. E o fonoaudiólogo reabilita o padrão respiratório e muscular.

O trabalho do fono inclui: exercícios de fortalecimento dos lábios (para que consigam permanecer fechados em repouso), reposicionamento da língua no palato (a postura correta de repouso é com a língua “colada” no céu da boca), treino de respiração nasal consciente e depois automática, adequação das funções de mastigação e deglutição, e eliminação de hábitos compensatórios.

O tratamento é gradual. A musculatura precisa ganhar tônus para sustentar o novo padrão, e o cérebro precisa automatizar a respiração nasal como padrão default. Isso leva, em média, 4-8 meses de terapia, com exercícios diários em casa.

Telefonoaudiologia e respiração oral

A terapia miofuncional para respiração oral se adapta muito bem ao formato online, conforme regulamentado pela Resolução CFFa nº 785/2025. A câmera permite que o fono observe a postura labial e lingual em repouso, demonstre e corrija exercícios em tempo real, e acompanhe a evolução semana a semana.

Os exercícios são realizados pelo paciente em casa — a sessão online é o momento de ajuste, progressão e motivação. Para crianças, a participação dos pais na sessão é um diferencial do formato online: eles aprendem junto e conseguem orientar a prática diária.

Perguntas frequentes (FAQ)

Respiração oral tem cura?

Sim, na grande maioria dos casos. Quando a causa obstrutiva é tratada (se houver) e a reabilitação muscular é realizada de forma consistente, o padrão respiratório nasal pode ser restabelecido. Quanto mais cedo o tratamento, melhores os resultados — especialmente em crianças em fase de crescimento.

Se meu filho tirou a adenoide, o problema está resolvido?

Nem sempre. A cirurgia remove a obstrução, mas o padrão muscular de respiração oral pode persistir por hábito. Por isso, o acompanhamento fonoaudiológico pós-cirúrgico é muito importante para garantir que a criança realmente volte a respirar pelo nariz.

Adultos podem corrigir a respiração oral?

Sim. Embora as alterações estruturais faciais sejam mais difíceis de reverter na idade adulta, o padrão respiratório, a postura de língua e as funções de mastigação e deglutição podem ser significativamente melhorados com terapia miofuncional.

A respiração oral pode causar problemas na fala?

Sim. A postura de boca aberta afeta o tônus dos lábios e a posição da língua, podendo causar distorções na produção de sons como o “s”, “z”, “t” e “d”. O tratamento da respiração oral frequentemente melhora a precisão da fala como consequência.

Chupeta causa respiração oral?

O uso prolongado da chupeta (além dos 2-3 anos) pode contribuir para alterações no palato e na postura labial que favorecem a respiração oral. A recomendação é retirar a chupeta até os 2 anos, preferencialmente de forma gradual.

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Referências Bibliográficas

  1. Marchesan, I. Q. Avaliação e Terapia dos Problemas da Respiração. In: Fundamentos em Fonoaudiologia. Guanabara Koogan, 2005.
  2. Abreu, R. R. et al. Prevalência de respiração oral em crianças. Jornal de Pediatria, 2008.
  3. Hitos, S. F. et al. Oral breathing and speech disorders in children. Jornal de Pediatria, 2013.
  4. Conselho Federal de Fonoaudiologia. Resolução CFFa nº 785/2025 — Telefonoaudiologia.
  5. Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia. Diretrizes sobre Respiração Oral.

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